Solidão e convívio

Quando todas as relações sociais se impregnam do verdadeiro espírito católico, o homem nas suas solidões é introduzido no convívio humano de um modo reto, proporcionado, amoroso; dessa sociedade evola-se o bom aroma de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Embora o homem seja um ser fundamentalmente sociável, por sua natureza, nas profundidades de si mesmo ele pensa, sente e elucubra só, ou seja, tem uma vida de solidão. Essa solidão é para ele, ao mesmo tempo, sumamente aprazível, mas em algo penosa, porque sente certa insegurança perguntando-se a si próprio — não é uma pergunta que ele se faça explicitamente — se o consenso universal está de acordo com o pensamento dele. Isso porque ele é levado a achar que o consenso universal é acertado.

Segurança e insegurança decorrentes do instinto de sociabilidade

Por exemplo: gostar muito de música. Se for um homem muito cauto, ele se perguntará se o seu gosto está na linha do equilíbrio humano verdadeiramente. Ele apreciará ver que outros arqui-gostam de música, tanto quanto ele. Esta noção de que há outros com ele dá-lhe uma espécie de segurança naquilo para onde ele ruma.

Por outro lado, essa segurança compensa de algum modo o instinto de sociabilidade que fica chocado por não ter essa forma de apoio. Ademais, ele percebe que no seu isolamento não é suficiente para abarcar tema nenhum. E, portanto, o próprio abranger global de um assunto não é praticável sem essa comunicação.

Mais ainda: quando se tratam de altas cogitações, o homem nota que aquilo que ele cogita segundo a ordem do universo mereceria ter outros que também pensassem. E que aquilo que ele sozinho estima fica meio depreciado. Há uma violação da ordem do universo que só ele admirará.

Assim, por exemplo, se um homem se visse o único admirador do Monte Saint-Michel na Terra, além de ter a insegurança quanto ao seu próprio bom senso, e da necessidade de outras repercussões para compreender bem o monte, ele teria uma espécie de frustração de notar que o monte não se fez venerar como deveria. E como aquele monte representa para ele um absoluto, seria um pouco como se o absoluto se tivesse deixado relativizar. E daí uma frustração perturbada que atinge a alma dele no fundo.

Se um homem, no fim do mundo, chegasse à conclusão de que o Monte Saint-Michel não tem mais condições de se fazer venerar pelos homens — não porque tivesse perdido a beleza, mas porque a humanidade mudou irreversivelmente —, se esse homem tivesse um senso axiológico(1) reto, fosse inocente, concluiria: “Vai acabar o mundo”.

Contudo, se for alguém sem um senso do ser reto, máxime se pertencer a uma religião ou corrente filosófica que não lhe tenha dado o ensinamento a respeito do fim do mundo, ele pensará que o mundo vai rolar eternamente, e nessa pessoa entrará um sentimento contra o Monte Saint-Michel, como quem diz: “Embora eu não saiba e não consiga ver, há em ti, ó Monte Saint-Michel, alguma coisa falha que não percebo”.

Um dos prazeres mais prenunciativos do Céu

Poder-se-ia perguntar: Por que o ressentimento não se volta contra os outros?

Pela ideia de que o senso universal não pode estar errado. E nesse caso o senso universal venceu.

Isso por que essa pessoa não está inteiramente convencida do absoluto. Seria alguém não compenetrado da ideia de que a opinião pública é versátil, falível. E há muita gente com mentalidade assim.

Se formos nos aprofundar no tema do convívio, notaremos que temos uma tendência a achar que as ideias ao encalço das quais nós caminhamos devem simbolizar-se de um modo excelente em algumas tantas pessoas. E descobrir as pessoas-símbolos de nossas ideias é o grande encontro da vida.

Isso constitui um dos prazeres mais internos que o homem possa ter na vida, realmente mais prenunciativos do Céu; é cercar-se de condições por onde essas várias formas de isolamento sejam harmonicamente rompidas. Isso vale muito mais do que ter um automóvel, um barco etc. É a busca do absoluto, da verdade e do bem, em função também do instinto de sociabilidade.

Compreendemos, assim, o caráter desinteressado do teor das relações no Reino de Maria. Não é, portanto, um relacionamento para fazer carreira, para arranjar um bom negócio, ou para qualquer outro interesse. É uma relação boa para conduzir a estados de alma assim. E que devem dar, por causa disso, também numa coisa inerente à natureza humana: faz parte do instinto de sociabilidade querer ser amado. O ser humano deseja que aquilo que o rodeie tenha um tipo de compreensão dele, por onde, entendido como ele é, nas suas retidões, seja querido como deve ser.

Quando a vida espiritual de uma sociedade é bem organizada, e todos em geral vivem essa vida, as relações naturais das pessoas — o ambiente familiar, a escola, a paróquia que elas frequentam devem oferecer-lhes, a vários títulos, jogos mais ou menos completos de relacionamentos assim.

Analogia entre as muralhas das cidades medievais e o relacionamento humano

Certos aspectos retratados em pinturas, iluminuras representando as sociedades medievais, cidades cercadas pelos próprios muros e com casas umas junto às outras, me dão uma ideia deste relacionamento. Eu sei que aquele muro tem como razão de ser o adversário que vai chegar. Mas percebe-se que ali se levava uma vida tão aconchegada, que se tem a impressão de que a muralha é uma condição para o aconchego de todas essas solidões bem ordenadas ali dentro, e que davam uma organicidade à vida, que era um motor, ou o próprio motor do resto da organicidade. Por isso também a destruição das muralhas traz-me uma dupla impressão: de um lado, o advento da era do otimismo em que tudo se resolveu, não vai mais haver dramas, as cidades não precisam de muralha; de outro lado, a impressão de uma cidade que se dispersa afetivamente, perde essa proximidade de um com o outro e se desconjunta, e a vida de individualismo começa.

Tudo tem que ser concebido a partir de pessoas que se relacionam desse modo.

Assim como há um perfume que se evola do turíbulo, quando falamos de Cristandade sentimos também um perfume que provém fundamentalmente deste relacionamento. Quer dizer, quando todas as relações sociais se impregnam disso, tomam o homem nas suas solidões, introduzem-no assim na sociabilidade e o instalam dentro do convívio humano de um modo reto, proporcionado, amoroso, evola-se, a meu ver, o bom aroma de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Uma coisa fantástica para mim é constatar como, ao considerar Nosso Senhor Jesus Cristo e tudo quanto Ele disse e fez, a pessoa se sente atendida neste relacionamento de todos os modos, formas e graças possíveis. Quer dizer, é um dos traços que nos fazem sentir na presença d’Ele mais “em casa” do que diante daquilo que nos for mais chegado.

Então, a Cristandade, antes de ser uma federação, uma união, uma coligação de povos para expandir a Fé, redigir os estatutos para uma mesma lei, originariamente era uma sociedade da qual se evolava esse perfume sem o qual não adianta falar em Civilização Cristã.

Entretanto, há nisso uma determinada ordenação, porque o homem bem constituído, embora seja sequioso de romper o seu isolamento, é sedento, sobretudo, de não destruir as muralhas e não se perder no meio da sociedade. Ele quer ser inteiramente ele mesmo, com sua legítima individualidade.

“Élans” de alma representados na arquitetura

A arquitetura medieval, elaborada por intenções de caráter estratégico, tático e econômico, tem esses “élans” de alma que representam o contrário harmônico do que estou dizendo.

Por exemplo, um castelo-fortaleza com a casa do senhor feudal. A certa altura encontra-se o “donjon”. Na muralha, de vez em quando, se erguem torres também. O “donjon” se levanta, mas há outras torres que não são “donjons”, nem estão nas muralhas. De cá, de lá, de acolá, erguem-se como uma espécie de desafio de torres que querem ir para o céu.

A torre representa, em relação ao corpo do castelo, algo como é a alma quando ela se destaca para cima, de dentro da coletividade, onde ela está perfeitamente bem instalada. Ela por alguns lados tem a necessidade de subir sozinha. Este isolamento não é uma ruptura do convívio, mas quase um produto deste. Está em harmonia com o convívio.

No “donjon” há algo que fala disso ainda mais: é um torreãozinho suspenso do lado de fora. Fica um encanto! É como quem diz: “Em relação a esse castelo para o qual fui feito, sem o qual não existo e em função do qual me explico, há certos lados de minha alma que me levam a me isolar legitimamente.”

Não se trata de ser inimigo do pátio, onde está a entrada da casa do castelão, um homem pregando a ferradura do cavalo e uma mulher lavando roupa, e onde se vê o vigário entrando na capela. Não é isso! É amar a harmonia dessas coisas posta por Deus.

Creio que tudo quanto falei da sociabilidade do homem ficaria meio adulterado se eu não fizesse esta ressalva. É preciso ter esse equilíbrio, e ao mesmo tempo entender que a guarita e a torre rompidas com o castelo viram prisões, mas que o castelo concebido como uma mera aldeia super-fortificada por construções horizontais atrás de muralhas, não corresponde ao instinto de sociabilidade bem ordenado.

Não obstante, há um elemento nas construções mais recentes que dá uma impressão parecida com a da guarita: em certas casas há mansarda na qual se abre de repente uma janela e há um quarto dentro da mansarda, com uma espécie de autonomia dentro da casa, onde quem mora pode levar a sua própria vidinha, entretanto, muito ligado à casa. Ali há uma condição que simboliza esse desejo da alma de ser só ela mesma, onde existe uma solidão bendita.

Na Roma antiga há umas coisas assim pitorescas. Umas casas, mas leprosas, sobre as quais faltou espaço para mais dois ou três “bambini” que nasceram. Então, construíram em cima uma casa de pedra que pode datar dos romanos, mas junto a um muro que talvez tenha pertencido a um palácio imperial. Puseram em cima um andar de madeira e, para aproveitá-lo melhor, fizeram uma projeção sobre a rua, apoiada em duas vigas aparentes.

Gáudios do convívio e do isolamento

Uma manifestação muito curiosa, pitoresca, desses vários estados de alma é a existência de frisas e camarotes nos teatros antigos. O que faz para a audição da peça aquele biombozinho à altura da cintura de um homem, que separa uma família da outra? Se em vez daquilo houvesse um cordão de seda, ou não houvesse nada não seria a mesma coisa? Aquilo indica uma vida própria dentro da vida geral. A família está contente de estar com todos, mas ela tem seu espaço.

Todos esses gáudios juntos, do isolamento e do convívio, nós teremos no Céu. Nas nossas relações com Deus somos, ao mesmo tempo, elementos vivos desse imenso castelo que é o Céu, mas somos torre, e até guarita, em alguma coisa de confidencial entre Deus e nós e que só nós sabemos, e é o ponto da requintada intimidade com Ele, e que não podemos contar aos outros.

Se uma pessoa, voltando-se a Nosso Senhor Jesus Cristo — representado nas boas imagens como, por exemplo, a de Turim — se ajoelhasse diante daquele Varão tão inflexível e tão soberano que está no Sacro Volto e dissesse o que tem de mais “guarita” na alma, tenho certeza de que seria compreendida por Ele a cem por cento, como ninguém, e encontraria n’Ele o Arquétipo daquele aspecto de sua alma.                v

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/3/1982)
Revista Dr Plinio 219 (Junho de 2016)

 

1) Termo derivado de “Axiologia”: ramo da Filosofia que estuda os “valores”, isto é, os motivos e as aspirações superiores e universais do homem, as condições e razões que dão rumo à sua existência, para os quais ele tende por insuprimível impulso da sua natureza.

 

 

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