Silêncios e implicitudes

Em minhas mãos, emprestado por um amigo, tive um disco cuja ilustração da capa me pareceu extremamente sugestiva: era um clássico jardim francês, provavelmente de Versailles, iluminado por um brilho de luar mirífico, um luar não apenas prateado, mas lilás, como os mais entusiastas das refulgências da lua não saberiam pintar.

O dono do disco levou-o consigo. Na minha má memória procurei conservar particularidades daquela gravura que tanto me impressionara, pois sentia em mim que, na recordação daqueles detalhes, qualquer coisa se moveria e cresceria no meu espírito. Era a implicitude de algo que estava em silêncio há muito tempo em minha alma e que em certo momento eu conseguiria explicitar, talvez de modo ainda incompleto.

O que seria? O que me dizia aquele jardim, agora melancólico, e entretanto mais belo do que belo fora na época áurea de Versailles? Dir-se-ia que o Rei Luís XVI há pouco o deixou para nunca mais retornar, sendo levado preso a Paris. Como estaria o palácio no seu interior, quando seus jardins se achavam naquele estado?

De cogitações dessas, que não são diretamente lógicas, nasceu em meu espírito uma espécie de parábola, que não pretendo de nenhum modo ter qualquer valor literário. Mas, seria algo assim…

Imaginemos a primeira noite de Versailles após a saída de Luís XVI, da Rainha Maria Antonieta e do resto da corte. O palácio está fechado, alguns de seus salões ainda em ordem, outros desarrumados, revelando as marcas de uma depredação levada a cabo pelos agitadores da Revolução Francesa. A desolação reina ali dentro, enquanto lá fora os raios de um lindo luar deitam suas cintilações sobre os arvoredos e flores de um parque extraordinário, ainda intacto.

De vez em quando, num ponto qualquer do castelo se ouve o bater de portas e janelas tocadas pelo vento, para em seguida tudo imergir num silêncio como nunca houvera em Versailles, desde a sua construção até aquele momento.

Imaginemos que, nesse cenário de melancolia e abandono, ainda transitava um casal de pequenos nobres que prestavam serviços ao rei. Por razões de ofício, ali permaneceram, recompondo o que fosse possível naquela grande desordem. Terminado o que podiam fazer, eles se retiram e atravessam a célebre “Galerie des Glaces” — a Galeria dos Espelhos —  de Versailles onde, para a surpresa deles, encontram outra pessoa. É um dos músicos do palácio que, já nostálgico, antes de se retirar para sempre dali, toca num cravo uma última melodia, digamos um último minueto.

O casal se detém diante daquela cena, na galeria iluminada apenas pelo luar que atravessa as amplas janelas. Emocionados, esposo e esposa começam a dançar aos acentos da música. Eles dançam o último minueto, o músico fecha o cravo e os últimos sons de Versailles, nos seus dias de glória, se extinguem.

Na consideração desse último minueto dançado em Versailles, disto que não é senão uma parábola — pois não há notícia de que esse fato tenha jamais acontecido —, pergunto eu: é verdade ou não que se pode sentir mais diretamente o que desapareceu com o fim do “Ancien Régime”, do que no-lo diz uma narração histórica inventariando e descrevendo todos os fatos como na realidade se passaram?

Ao contrário do que talvez pensassem certos espíritos muito doutos, cuido eu que o homem capaz de imaginar uma parábola como essa não é um fantasioso. Antes, compreendeu ele um aspecto da realidade muito difícil de explicitar, de exprimir e de avaliar razoável e retamente, mas que tem seu papel na descrição, no estudo e na ponderação da realidade total.

Essa parábola nasceu depois de longos silêncios e de implicitudes fecundas as quais, tomadas de dentro de minha alma como o mel de dentro do favo, veio à luz do dia e se tornou descrição: o último minueto em Versailles. v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 23/12/1990)
Revista Dr Plinio 127 (Outubro de 2008)

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