Serenidade, doçura e força

Em viagem pela Europa, no ano de 1988, Dr. Plinio visitou a Catedral de Aachen, a cidade onde o Imperador Carlos Magno instalou sua capital, e na qual morreu. Voltando ao Brasil, comentou com seus jovens discípulos os diversos aspectos dessa igreja que o marcou profundamente.

 

Há na Catedral de Aachen uma fusão de estilos com diversos elementos arquitetônicos: o domo propriamente dito — que é a cúpula central grande, encimada por outra pequena, tendo no alto uma cruz — é românico; as torres, as ogivas e as rosáceas de cristal são de estilo gótico.

Do lado de fora da catedral, há figuras muito bonitas, nas quais se nota — como é patente nas incontáveis esculturas existentes no interior e exterior das igrejas medievais — uma paz, uma serenidade extraordinárias: são homens grandes, fortes, muito másculos, com certo ar de quem tem um avô ou bisavô bárbaro.

Uma nota componente da Idade Média é a serenidade, da qual o mundo de hoje perdeu a fórmula: ligação harmoniosa entre a força e a doçura. Os varões aí representados são fortíssimos — herança da natureza pujante dos povos germânicos — e, ao mesmo tempo, dulcíssimos. E esse ambiente de serenidade provinha de um passado cheio de lutas e também de oração, de piedade e de obras de misericórdia.

Podemos imaginar o que seria uma igreja repleta daqueles homens dulcíssimos e fortíssimos, todos entoando canções religiosas ou aguardando, num silêncio muito meditativo, a hora da Consagração. E o grande Carlos assistindo, resplandecendo de piedade e de glória.

Observando tudo isto paralisado na pedra e nas recordações históricas, percebe-se ser uma planta que produziu depois um esplêndido ramo de flores douradas. Dir-se-ia que a glória da posteridade reluz nesses heróis esculpidos na pedra.

Apesar dos recursos que havia naquele tempo, a cúpula, vista do lado de dentro da catedral, é riquíssima. O lustre fica muito bem dentro dessa cúpula e nessa atmosfera.

Há altas arcadas, com dois andares de colunas, e por detrás se vêem os vitrais que eram lindos, famosos, e que foram destruídos durante a última guerra mundial. Foram eles substituídos por outros muito inferiores, mas bonitos vitrais, perfeitamente dignos, permitindo avaliar qual é o efeito ótico desejado por aqueles que os fabricaram. Essas arcadas lembram vagamente o estilo da Basílica de São Marcos, em Veneza. O estilo da Catedral de Aachen é clássico-românico, e o da Basílica de Veneza, bizantino.

A cúpula internamente é constituída por mosaicos dourados, muito bonitos, com cenas sacras.

Numa capela lateral, há uma bela imagem de Nossa Senhora com flores e um bom número de velas acesas, colocadas num móvel a fim de permanecerem de pé.

Para o meu gosto, o relicário que contém os restos mortais de Carlos Magno é uma das mais bonitas peças de ourivesaria que existem. Quando examinado de perto, verifica-se cada uma de suas facetas, e depois aprecia-se o conjunto. A harmonia é perfeita!

Compreende-se, assim, como as populações nascidas do esforço de Carlos Magno, que eram descendentes dos antigos bárbaros e dos romanos decadentes, foram se civilizando, se aperfeiçoando, trabalhadas pelas mãos — que eu chamaria divinas — da Igreja Católica.

Há também, próximo deste, outro relicário, o qual, como objeto de arte, é um encanto. Pergunta-se qual a autenticidade das relíquias que ele contém(1). Quer dizer, são realmente das santas e sagradas personalidades referidas? Como chegaram a Carlos Magno?

Se dependesse de mim, eu mandaria fotografar todos esses documentos para ver se apareciam neles sinais à maneira — pelo menos nos que são de pano — do Santo Sudário de Turim. E realizar testes a fim de averiguar de que época são eles, para se obter alguma probabilidade a respeito de sua autenticidade.

Encontra-se na catedral o trono de Carlos Magno.

Há uma espécie de vão abaixo do local onde está o trono. Em dias de peregrinação, pode-se passar por esse vão, tendo-se, assim, contato especial com essa gloriosa reminiscência do Império.

Do ponto de vista estritamente artístico, esse trono é muito inferior ao relicário. Entretanto, nota-se a preocupação de fazer uma coisa bela e nobre, pela quantidade de mármores que não havia no território do Império de Carlos Magno. Era necessário importá-los de outros lugares e transportá-los, com proteção de grupos armados, em dorso de mula, por estradas difíceis, enfrentando perigos como cair em abismos. Os grampos de ferro que existem no trono e o enfeiam, parecem-me ter sido postos muito tempo depois, para assegurar a coesão de suas várias partes.

Há também um busto de Carlos Magno, no qual vemos que em seu traje figuram uma série de águias e, na orla inferior, flores de lis, que são símbolos do Sacro Império Romano Alemão e da França, respectivamente. O artista que elaborou esse busto procurou colocar-se na perspectiva daquela época, e o fez de modo acertado.

Dificilmente se poderiam sintetizar duas nações tão gloriosas quanto a Alemanha e a França, e Carlos Magno conseguiu realizá-lo.

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 9/12/1988)

 

1) O relicário contém: o manto de Nossa Senhora; as faixas de Jesus, usadas no presépio; o tecido que envolveu a cabeça de São João Batista, depois de sua decapitação; e o pano que cobriu Nosso Senhor na Cruz.

 

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