O órgão, o vitral, a ogiva

Três luzes emanadas da Civilização Cristã que, sendo representações sensíveis de Deus, elevam as almas a uma atmosfera celestial.

 

O órgão tem esta coisa maravilhosa: é uma “penumbra sonora”, feita exatamente de som e silêncio. Porque, ainda que soe com todos os registros, o órgão tem dentro de si qualquer coisa de aveludado e silencioso, que é um dos seus melhores charmes, e que mais casam com a penumbra visível da Igreja. Assim é o misto de silêncio e som que há no órgão.

O instrumento de todas as inocências

Entretanto, o órgão quase não comporta a descontinuidade sonora total. Aquele som vai e vai… Sempre mantendo uma harmoniosa ligação com os sons anteriores.

A pessoa que, a partir de um instrumento rudimentar, deu ao órgão as características que conhecemos hoje, poderia ser chamada de “profeta” em matéria de música.

A meu ver, o órgão tem isto de fabuloso: há nele registros que remetem diretamente para o mais admirável da inocência e que fazem dele, quando bem tocado, o instrumento de todas as inocências.

Se fôssemos falar propriamente da inocência na sua maior abertura de asas, deveríamos imaginá-la como um órgão. Ela transforma a alma do homem num instrumento capaz de tocar todas as músicas, à maneira do órgão.

Assim, enquanto não conseguirmos fazer sair das profundidades de nosso ser, não a catedral engloutie1, mas o órgão englouti, não teremos feito nada.

Toda alma tem, com variantes, um “órgão metafísico” para tocar em função do universo, e a descoberta desse “órgão” é o fim da nossa vida. Quando descobrirmos isso, estaremos prontos para o Céu. Isso se refere, inclusive, ao escopo da vida de piedade.

Representações sensíveis de Deus

A Santa Igreja tem algo por onde ela relaciona os homens à maneira dos tubos de um órgão. Por isso, a Igreja Católica, bem constituída e vista na sua inteira normalidade, pode ser comparada a um imenso órgão ou a um imenso vitral, porque o vitral faz com as cores o que o órgão realiza com os sons; é o mesmo princípio aplicado em matéria cromática.

Trata-se, portanto, de formar uma visão da ordem temporal sacral, dentro da ordem do universo na qual o homem se encaixa, iluminado por este lumen uno da Igreja, que ela soube exprimir através do órgão e do vitral, mas que é um estado de alma, uma supravirtude, uma superposição de temperamento, que eu tenho a impressão de que é uma das graças, das mais genuínas, do Espírito Santo.

Em Pentecostes uma chama baixou e depois se dividiu em várias línguas de fogo. Assim também, o unum dessa graça estaria nessa chama originária, que depois se transformou nos vários tubos de um órgão ou nas várias cores de um vitral. É a regra da reversibilidade entre unidade e variedade que está aqui refletida. Variedade levada até quase ao infinito, partindo de uma unidade que se desdobra em guirlandas sem se depauperar em nada.

E, a bem dizer, com uma semelhança estupenda com Deus, que sem Se empobrecer e sem Se cansar em nada, no fulgor de sua glória, cria. Também esse unum não se exaure, não empobrece, até se alegra em emitir de dentro de si as mais valiosas variedades, sem sofrer o menor abalo. Quase o motor imóvel de tudo o que ele mesmo pôs em movimento.

Este é o unum do órgão, que é o mesmo do vitral: são representações sensíveis de Deus, motor imóvel.

O órgão tem uma forma de beleza própria à polifonia, diversa da beleza austera do cantochão. Entretanto, o canto gregoriano e o órgão não se contradizem, ambos são sublimes. Enquanto o gregoriano afirma: “vaidade das vaidades, tudo não é senão vaidade”2, o órgão parece dizer: “harmonia das harmonias, tudo não é senão harmonia”.

Por outro lado, vejo no órgão o mesmo que na ogiva e em outras coisas da Idade Média: uma ordem magnífica.

O sublime, o paradisíaco e o alcandorado

Nem tudo o que é humano, nesta Terra, é sublime, mas o órgão seleciona, dentre os sons humanos e terrenos, os sublimes, procurando elevá-los a um estado paradisíaco. O estilo gótico, por sua vez, busca o mesmo em matéria de arquitetura.

Poderíamos dizer que metade do espaço ocupado pelo gótico e pelo órgão é sublime, e a outra metade é paradisíaca. Na ponta transparece o alcandorado e a esperança do Reino de Maria.

Já a coexistência tão ordenada desses três valores — o sublime, o paradisíaco e o alcandorado — dá uma plenitude muito repousante e que prepara para o alcândor. O gótico é uma espécie de santa preparação para chegar ao alcândor. Reúne tudo quanto nossa natureza é capaz de pegar e vai ordenando para perceber a ponta do sublime, e é nisto que me parece estar o mais belo do gótico.

Vemos, assim, o equilíbrio com que devemos pensar no alcândor do Reino de Maria, que não desprezará nem o sublime nem o paradisíaco. Mas assim como Nosso Senhor subiu, caminhando com seus pés divinos, até o alto do Monte das Oliveiras para ali operar sua Ascensão aos céus3, na qual já não necessitaria empregar a força de seus membros, também no Reino de Maria se ordenarão esses valores sublimes e paradisíacos para, a partir dessa elevação, ascender-se ao alcandorado.

Lembro-me da primeira vez em que eu vi uma ogiva em estilo gótico flamboyant. Exclamei: “Ah, que maravilha! Era o que faltava e que eu não tinha talento para imaginar. Que coisa estupenda, maravilhosa!”

Depois ouvi alguém criticá-la, mostrando o que ali havia de transição revolucionária para a Renascença. Pensei: “Lá vem o famoso mau espírito demolidor, a tal acusação seca e destruidora do bom espírito.” Mas depois compreendi que a pessoa tinha razão, pois no modo daquela chama se agitar já entrava algo da Renascença.

Porém, em si, o princípio de que a ogiva tão bonita floresceria numa ordem que a transcenderia, me encantou. Era algo que subia para o alcandorado, cujo voo a pré-Renascença desfigurava. v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferências de 6/4/1978 e 16/11/1979)

 

1) Do francês: submersa. Referência a uma lenda bretã segundo a qual os sinos de uma catedral submersa no mar faziam ouvir seu bimbalhar, em certas ocasiões, trazendo à tona a memória do magnífico templo e da belíssima cidade onde ele fora erigido.

2) Cf. Ecl 1, 2.

3) Cf. At 1, 12.

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