O amor ao maravilhoso por meio da admiração aos arquétipos

Um dos melhores modos de preparar-se para a visão beatífica é, já nesta Terra, amar o maravilhoso por meio da admiração aos arquétipos. Que relação tem esse amor com a prática do primeiro Mandamento?

 

Para saber o que é um arquétipo, é preciso saber o que é um tipo: a palavra arquétipo vem de “arqui”e “tipo”.

Definindo o que é um tipo e um arquétipo

Arquibancada é uma bancada por cima de outra. Tal coisa é arqui-conhecida, quer dizer, há uma porção de outras coisas que são conhecidas, esta é mais do que todas as outras; mais do que muitas outras.

Então, cada conhecimento, vamos dizer, cada degrau de uma escada é análogo ao outro, mas o mais alto degrau da escada pode ser mais ornado, com um tapete que deita suas franjas. É o mais importante, porque é o fim da escada. Ele é, de algum modo, o “arquétipo” dos outros degraus.

Na linguagem de nossa comissão de estudos chamamos de arquetipia o fato de que Deus pôs nas criaturas uma ordem, uma relação, pela qual umas são “tipo” das outras e a que está mais no alto é a arquetípica. Quer dizer, é o tipo dos tipos.

Uma rosa, por exemplo: é bonita, agradável de ver. É possível que alguém goste de olhá-la, embora não a ache “tipo”. Mas se ela tem todas as formas de beleza próprias a essa flor, dizemos: “Rosa é isto!” Ou seja, é uma rosa que caracteriza, que resume em si, que apanha as qualidades de todas as rosas. É um tipo!

Fulano é um brasileiro típico. O que quer dizer isto? Que se trata de um brasileiro que reúne em si as qualidades comuns da nação — qualidades e defeitos! —, mas de um modo especial aquilo por onde o brasileiro, nas suas qualidades e nos seus defeitos, é diferente das outras nações. Então olha-se para ele e diz-se: “Aquele é típico”.

Dentro do Brasil há tipos. Pode ser um gaúcho típico, um catarinense, um paranaense, um paulista, um carioca. Percorreríamos toda a lista dos Estados, cada um tem seu tipo. Quer dizer, ele tem os traços que todos têm, mas aquilo por onde, naquele Estado as pessoas são diferentes das outras, ele tem muito marcado. Então, ele é um tipo aquele Estado.

O arquétipo é o tipo multiplicado pelo tipo.

Outro exemplo: “Fulano é um siamês típico”. Quer dizer que ele tem tudo quanto é próprio a alguém que nasceu na Indochina onde havia o antigo Reino do Sião. Ou seja, ele tem tudo quanto é próprio a quem nasceu ali, mas tem de um modo característico que o diferencia dos outros. Quando esse “tudo” que ele reúne é “tudíssimo”, e o que o diferencia, diferencia muito, então ele é um arquétipo. Ele tem aquilo levado ao mais alto grau.

Tipos e arquétipos na Criação

Então, a tese é esta: Deus nosso Senhor criou as coisas de tal maneira que, por exemplo, toda espécie de pedras acaba tendo uma que é arquétipo das outras. Há pedras comuns, pedras “tipos” e pedras “arquétipos”. Podemos imaginar um rubi que um joalheiro pega com uma pinça. Perguntam a ele:

— Que pedra é essa?

Ele analisa, pensa um pouco e diz:

— Será um berilo? Será uma turmalina vermelha? Será uma granada?

Ele pensa mais um pouco e diz:

— Isto aqui é um rubi!

Se lhe dão uma outra pedra, ele olha um pouco e diz:

— Isto é um rubi!

Este é um “tipo”.

O primeiro é um rubi meio apagado, meio que se confunde com outras coisas. O segundo, não. É um rubi típico! Mas se lhe mostram um rubi da coleção dos antigos xás da Pérsia, um rubi multiplicado pelo rubi, ele diz:

— Oh, que rubi!!!

Tomemos outra coisa: um esquilo. É um bichinho tão engraçadinho, e faz coisas que têm muito de engraçadinho.

Entendemos, e há certos fundamentos disso em São Tomás, que todos os esquilos que Deus criou desde o começo do mundo até ao fim do mundo, não são criados a esmo, mas formam uma coleção. De maneira que todo os modos de ser principais, possíveis no gênero esquilo acaba até o fim do mundo existindo. E formam uma coleção de esquilos que morrem. Mas Deus criou essa coleção de esquilos.

Coleção de coleções

Assim tudo está coleções no universo. Mais perfeitas, mais graduadas, menos graduadas, mas tudo forma coleções.

Eu me lembro ter lido uma vez que num lugar do Polo Sul, por debaixo da neve — o Polo Norte é todo feito de água consolidada, já no Polo Sul há terra; terra é um modo de dizer, há corpos sólidos — há cardumes de camarões tão numerosos que através do gelo meio transparente se percebe o róseo passear. Não é bem o róseo, é a cor típica daquele camarão.

Todos os camarões desde o começo do mundo até o fim, todos os camarões, no fim, esgotam uma coleção. De maneira que quem os visse — se fosse possível ver todos os camarões que houve e haverá até o fim do mundo — compreenderia que é uma verdadeira beleza.

Alguém poderá dizer:

“Por que Deus faz isso? Se esses bichos desaparecem e Ele, no entanto, é eterno e tem em Si todas as perfeições, que lucro tem em ver esses bichinhos?

Para dar uma resposta: basta que os Anjos vejam para se justificar. Os Anjos assistem a tudo isso. Eles estão colocados, de algum modo, fora do tempo. Para eles tudo é de algum modo simultâneo; de algum modo, eu estou simplificando. Então, eles têm essa noção, eles cantam glórias a Deus.

Alguém dirá: “Mas quando acabar o mundo acabou isso também”.

Não, porque na recordação deles fica. Fica na nossa admiração, porque nós não vemos como eles e não podemos imaginar como é. Então, é uma bonita coisa, por exemplo, olharmos para o esquilinho e perguntarmo-nos: “Quantas modalidades de esquilo houve e haverá até o fim do mundo? Em cada gênero, quantas espécies? Em cada espécie, quantas famílias? Em cada família, quantos indivíduos? Que riqueza da obra de Deus! Que maravilha há dentro disso!” Dá para uma meditação muito bonita.

Seria interessante um dia, com calma, tomarmos alguns exemplos e analisar. Seria uma coisa muito adequada, muito boa!

Imaginem todas as criaturas, já não apenas cada gênero formando uma coleção, mas todas as criaturas que há ou houve na Terra, formando uma coleção de coleções — notem que os Anjos veem isso assim! — podemos imaginar a variedade.

Depois, em cada pináculo de uma coleção, um arquétipo, que é como o rei e o monarca daquela coleção! Várias modalidades de arquétipo, porque a natureza, vamos dizer, dos esquilos é tão rica que não basta ver um para dar uma ideia do “tipo” de esquilo. Oito, cinco, cinquenta, cinquenta mil arquétipos de esquilos. No fim pode-se imaginar o rei dos esquilos!

Mensagens de Deus

Isto que estou falando é acessível, é fácil de entender. E distrai o espírito. Por exemplo, não dá certo repouso tratar disso? Ora, a matéria é filosófica… Acredito que sendo apresentada a coisa de um modo humano, vivo e não apenas esquelético, as coisas da Filosofia podem atrair, e aqui está um exemplo concreto.

Agora, por que que Deus criou tudo isso? É para os Anjos verem. Está bem. Só para isso? Haverá uma outra razão? Há. É que todas essas coisas exprimem de algum modo a perfeição infinita d’Ele. Cada ser que existe é como que uma mensagem de Deus que nos diz:

“Meu filho, note, Eu também sou isto! O esplendor de todas as auroras, a majestade de todos os meios-dias e a dignidade vitoriosa de todos os ocasos, tudo isto reflete-Me a Mim. E se Eu devesse ser conhecido apenas nesse filme fantasmagórico que representasse todas as auroras, todos os meios-dias e todos os ocasos de todos os lugares do mundo, em toda a História, ainda Eu, nem de longe, estava esgotado para tu teres uma ideia do que Eu sou. Mas enfim, aqui está uma coleção que pode dar uma ideia genérica, global do que sou Eu, debaixo desse ponto de vista.

“Olhe agora para o esquilo! Na sua agilidade, naquilo em que ele faz sorrir, compreenda que há algo por onde Eu sou infinitamente aprazível, atraente, distensivo. Infinitamente… Sendo infinito, Eu tenho também em Mim a matriz infinita daquilo por onde o esquilo é engraçadinho. Poder-se-ia dizer: ‘Eu sou o mino, Eu sou a graça! Eu sou a majestade, Eu sou a bondade. Veja, meu filho, são mensagens que Eu dou!’”

O mais alto cume

Outro exemplo. Há uma imagem muito bonita — aliás, são duas imagens meio parecidas —; uma é a de Notre-Dame, está na fachada da Catedral de Notre-Dame de Paris, é Nossa Senhora com o Menino Jesus nos braços. Ela está complacente, muito materna com Ele que repousa posto nos braços d’Ela com intimidade! Mãe e o Filhinho criança. Ela é régia. O Menino Jesus, Homem-Deus, não terá feito algumas coisas à maneira de criança e com graça de criança para Ela olhar?

Outra imagem parecida é a de La Virgen Blanca.. São Luís, rei de França, primo-irmão do rei São Fernando de Espanha, mandou essa Virgen Blanca para a Catedral de Toledo, onde é conservada para veneração. É uma obra-prima. Ela tem uma expressão ligeiramente entretenida da reação infantil de Deus em face d’Ela! E Ela que é Filha do Padre Eterno, Mãe do Verbo Encarnado e Esposa do Espírito Santo, que conhece Deus como jamais criatura humana conheceu e que tem a ideia de todas as majestades, todas as grandezas de Deus como nenhuma criatura humana teve, Ela sabe que Deus, da excelsitude de suas perfeições, a está fazendo sorrir.

Sente-se o envolvimento do carinho, da bondade e um incitamento à confiança na misericórdia; tudo isto dá mil ideias sobre Ele, que é o ápice de tudo. É a ponta, o mais alto cume de tudo.

Coluna símbolo de certas almas

Mais: Ele não é só o mais alto cume. É mais do que isso.

Uma vez vi, numa ruína de um lugar de civilização greco-romana da Ásia Menor, no meio do cacareco, uma só coluna de pé! Havia acontecido tudo, mas aquela coluna tinha ficado de pé, sozinha! Eu senti um arrepio vendo-a.  Era uma coluna de ordem coríntia, muito ornada, com as folhas de acanto. Pensei: “Por que razão eu estou tendo essa impressão? Por que chegou a me arrepiar? É porque essa coluna lembra certo tipo de resistências que o homem pode opor, quando tudo em torno dele cai, mas ele continua de pé”.

Havia uma altiva família de príncipes, em Roma, que se chamava Colonna — Colonna quer dizer coluna — e o brasão deles era uma coluna com os dizeres: “Mole sua stat” — por seu próprio peso, por sua própria figura, está de pé.

Aí eu percebi qual era a razão pela qual aquela coluna me tinha arrepiado. Começo por dizer que não me arrepio com arte grega nem romana, não tenho grande interesse. Tem coisas muito bonitas, mas não é para o meu gosto especial. Cada um é lá de um jeito. O meu é este!

Aquela coluna me impressionou, não por ser de estilo grego, mas por estar de pé daquela maneira. Entendi que a coluna lembrava uma ordem de seres, uma categoria de seres muito superior a ela, que é o homem. O fato de lembrar o homem, de indicar que ele transcende a coluna por sua natureza — ele é muito mais! A coluna tem, em pedra ou em tijolo, o que o homem tem na alma. Firmeza de alma. Essa firmeza o homem-coluna tem!

Por exemplo, Santo Atanásio chegou a ser muito perseguido porque combatia os arianos com muito vigor. No tempo do Império Romano do Ocidente e do Oriente, já cristianizado, católico, o mundo inteiro, de repente, ficou ariano e ele quase ficou sozinho na luta.  Foi tão perseguido que em certo momento ele não teve outro remédio, para evitar ser morto, do que entrar na sepultura dos pais e morar ali, escondido. Mas ele lutou contra tudo e contra todos e o Concílio de Niceia, com gáudio enorme, acabou definindo algo sobre a relação da natureza humana e da natureza divina em Jesus Cristo, de acordo com a verdadeira doutrina e contra o que Ario queria. Daí decorria que Nossa Senhora era Mãe de Deus.

Santo Atanásio pode ser chamado a coluna da Igreja. Pobre coluna que eu vi de pé no meio das ruínas… Um terremoto a derruba! Nada derrubou Santo Atanásio!

Ele tinha a graça de Deus que o ajudou. Mas ele correspondeu! A muitos Deus oferece a graça e não correspondem. A ele não, Deus ofereceu e ele correspondeu largamente, generosamente! O nome dele ficou com uma espécie de glória de fogo na História da Igreja.

Santo Atanásio transcende as colunas. Quer dizer, ele é de uma natureza superior. Aquilo que a coluna tem por analogia ele tem com muito mais propriedade, pois está na natureza humana.

Deus é transcendente. O que tem o esquilo, o rubi, a coluna, Santo Atanásio, Deus é tão superior, mas tão superior que Ele transcende a isso. É de uma superioridade que é um abismo entre Ele e nós. Para lá desse abismo está a perfeição d’Ele.

Pelo seguinte: podemos dizer que Santo Atanásio era fiel, era forte. Deus não é nem fiel nem forte, Ele é a Fidelidade, a Força. Todo mundo que é fiel o é por uma participação d’Ele. Ele é o Motor Imóvel. Tudo subsiste porque Ele sustenta. Por cima de tudo está Ele!

Em busca do mais excelente

Para compreendermos essa relação e para se ter uma certa noção da infinitude de Deus, consideremos que Ele criou uma coleção enorme de coleções, de tipos e de arquétipos. O homem não é o arquétipo da coluna; Santo Atanásio está para a coluna numa relação, não igual, mas um tanto parecida com a relação entre Deus e o homem. Deus, não tem ninguém acima de Si, Ele é supremo, perfeito, infinito.

Então o que acontece com a natureza humana? Quando ela é reta, instintivamente procura os arquétipos.

Uma criança deitada no berço, que apenas sabe dizer “maaaaa”, se amarrarem num fio de linha uma bolinha de pingue-pongue, branca e comum, o seu instinto lhe diz que algo existe. E ela procurará desajeitadamente com os braços, pegar a coisa. Quando pega, ela tem o instinto de propriedade. Tenta-se tirar e ela não deixa… Mas há algo que não falha: há bolas bonitas que se põem em árvores de Natal. Eram bonitas, com cores reluzentes, dourado, verde, vermelho, azul, cores lindas! Se suspenderem ao mesmo tempo diante da criança a bolinha de Natal e a de pingue-pongue. Ela tem um movimento para o maravilhoso: ela vai para aquilo que tem mais luz! É uma coisa instintiva!

Ponham para uma criança um instrumento de música que bata: pam! pam! pam! — um só som. A criança se habitua e não nota. Imaginem que se ponha um pouquinho de música. A criança, estando um pouco mais desenvolvida, presta mais atenção. Por quê?

Porque a sua natureza é apetente de maravilhoso, no fundo apetente de Deus! Se de algum modo, nos seus sentidos, ela fosse tocada por Deus, ela inteira se voltaria para Ele. A criança apetente do maravilhoso e no fundo, por isto mesmo, apetente de Deus, ela, quando se coloca diante de algo mais excelente, ela tende para aquilo que é mais excelente. Isso é reto. Pode ser que depois a criança abuse, tenha a mania de ter uma coisa, desordens próprias da natureza humana. Mas, em si, este primeiro movimento é um movimento reto. É um movimento pelo qual o homem quer aquilo que é mais excelente, que lhe convém mais!

“Enorme”, um cavalinho de pano

Por causa disso, a criança tem uma imaginação muito fértil. Ela facilmente atribui aos brinquedos que tem uma qualidade que eles não têm.

Uma vez passei por uma cruel decepção. Eu tinha talvez três ou quatro anos e possuía um brinquedo comum: um cavalinho de pano posto sobre umas rodinhas com eixo de metal e havia um laçozinho pelo qual eu podia puxar o cavalo. Ele, para meus braços, era um cavalo muito grande, tinha até uma certa dificuldade de segurá-lo, então, chamava-o de “Enorme”.

Quando ia brincar, pedia para me darem o meu “Enorme”.

Quando minha mãe adoeceu, fui com ela para a Europa, para ela ser operada, e guardaram num armário o “Enorme” para eu brincar quando voltasse.

Durante a viagem à Europa, de vez em quando eu falava do “Enorme” e quando voltei, eu tinha talvez um ano a mais e nesse período um ano faz uma boa diferença, pedi:

— Quero o meu “Enorme”!

Levaram-me, lembro-me como se fosse hoje, para o quarto do andar térreo da casa, onde havia um armário onde se guardavam os brinquedos de minha irmã, de minha prima e meus. Estava tudo trancado, porque todo mundo esteve fora nesse período. Então, tiraram e me deram o “Enorme”.

A minha primeira reação foi:

— Esse não é o “Enorme”!

Risadas de duas ou três pessoas em torno de mim. Era terrivelmente parecido com o “Enorme”, mas terrivelmente mais “poca” do que o “Enorme”. Qual era a razão?

Em parte eu tinha crescido, o “Enorme” tinha deixado de ser enorme. Em parte, eu via o “Enorme” e notava muito que ele era de pano; quando fiquei mais velho, vi que era um boneco. Quando eu fui viajar imaginava-o quase como se fosse um ente vivo. Eu atribuía ao “Enorme” algumas qualidades que um cavalo deveria ter e que um boneco não podia ter. Estava, no fundo, à procura da arquetipia do cavalo, de alguma coisa que o transcendesse: era o cavalo vivo!

Desejo de coisas mais altas

Coisas dessas são movimentos que existem na alma de todas as crianças. E uma das coisas que faz a maravilha da criança é exatamente isto.

Por exemplo, a árvore de Natal. Não há quem, em criança, não se tenha extasiado diante de uma árvore de Natal. Mas o que é a árvore de Natal?

Podemos imaginar que ela seja a figura de uma árvore como poderia existir no Paraíso terrestre.

O homem como está na terra de exílio, não tem as coisas como as do Paraíso. Nele as coisas são muito mais bonitas. O que no Paraíso é mero tipo, para a terra é um arquétipo não alcançável. Então, o homem imagina a árvore de Natal e a criança se encanta, porque sua alma é desejosa de uma perfeição não existente nas coisas que existem. E ela quereria uma ordem de coisas, quereria uma natureza, quereria outras pessoas, quereria tudo como não existe, porque a sua alma foi feita para coisas maiores e deseja essas coisas maiores.

Agora, porque ela deseja essas coisas maiores acontece que ela tem uma forma de talento por onde ela como que adivinha a perfeição que tudo deve ter. E por causa disso também, a criança tem uma imaginação muito criativa e tem o senso do maravilhoso levado a um alto grau.

Educar catolicamente

Numa educação verdadeiramente católica, os pais deveriam fazer o quê? Lecionar, ensinar às crianças a realidade inteira. Quer dizer, o que tem aqui é isto. É assim porque estamos na terra de exílio, foi cometido o pecado original, depois nós também pecamos, o que merecemos é isto. Isso é muito bonito. Então, o esquilo é muito bonito! Mas se quiser imaginar que haja esquilos se movimentando no Paraíso, como seriam?!

E quando passa, às vezes, um bicho muito extraordinário: uma borboleta azul e prata, um beija-flor, alguma coisa assim, temos a impressão de que se extraviou do Paraíso e foi parar na Terra!

Por isso, quando uma criança que tem uma rede dessas para pegar borboleta, vê passar — diante de si, num parque ou na mata brasileira, ou sul-americano em geral, suponho —, uma borboleta azul e prata voando, a criança fica louca e quer pegar de todo jeito. É algo de maravilhoso que ela quer pegar.

A essa tendência, o pai ou a mãe deveria dizer:

“Olha, está vendo, Deus fez assim o Paraíso. Isso aqui era o ponto de partida. Isto aqui está aqui para você ter ideia de como as coisas poderiam ser e não são. Procure imaginar, olhe para o que Deus fez de maravilhoso, procure prestar atenção, procure imaginar como seria o Paraíso. Procure fazer com que tudo quanto você mexa, você modele, tenha alguma coisa que exprima essa sua tendência para o Paraíso. Rume para a perfeição!

“Mas, pobre Paraíso terrestre em comparação com o Paraíso celeste! No Paraíso celeste não há flores, há Anjos! E os Anjos estão dispostos desta maneira, daquela outra. E por cima de tudo está Nossa Senhora, mais sua Mãe do que é sua própria mãe. Porque Ela te ama mais do que todas as mães juntas amariam o filho único que tivessem. A você! E se você se sente um ratinho para ser amado assim por Nossa Senhora, acredite porque é de Fé, a cada ‘ratinho humano’ Ela ama assim! Creia e confie! Alegre-se e reze! Cuide de servi-la, de batalhar por Ela!

“Mas olhe para os olhos de Nossa Senhora, você verá que no fundo há um “lumen” que vai muito além do d’Ela. Ela está olhando para você, mas Ela, ao mesmo tempo, está olhando para alguém, [esse] alguém é o Divino Filho d’Ela! Há um “lumen Christi”, uma luz de Cristo n’Ela que já vai além do humano. É humano, mas é divino. Mais ainda, Ela está vendo Deus face a face! Olhe para os olhos d’Ela e é como se você olhasse num espelho para ver o Sol: o maravilhoso do maravilhoso do maravilhoso, a perfeição de todas as perfeições!”

Se todos os homens tivessem isso diante de si, o mundo não seria outro? Por exemplo, um sermão sobre isso numa igreja, realçado por algo que tem a palavra do padre que a do leigo não tem: é a graça do sacerdócio. Realçado pelo púlpito, pela dignidade do edifício sagrado e pelas bênçãos especiais que Deus põe nele. Tudo ali reunido e um padre dizendo isso. Não seria de comover? As pessoas não chegariam meia hora, uma hora antes para reservar o lugar para ouvir o sermão?

Assim deveriam ser os homens.

O contrário da formação católica

Quanta gente eu vi em torno de mim, já naquela remota época em que eu era pequeno, em que a formação não era dita assim, mas era isto: “Essas coisas são bobagens de infância, não pense nisso! Tudo quanto é maravilha é sonho. Você perde a partida da vida se você pensar em coisas dessas. Seja prático! E, para ser prático, você precisa das duas coisas: ter saúde e ganhar dinheiro!

“Preocupe-se em saber responder a esta pergunta: ‘Como ter saúde?’ Saiba o que é que lhe fez bem, o que é que lhe faz mal. Faça os seus exercícios. Mova-se de maneira a ter saúde, porque a doença é um horror. Outra coisa, que é preciso ganhar dinheiro. Seja rico! Porque a pobreza é a mais triste das condições. Aprenda como ganhar dinheiro. Saiba sorrir, agradar, bajular, dar rasteiras, dar golpes, avançar, recuar; saiba fazer tudo, contanto que te caia nas mãos esta coisa incomparável: o ouro! Corra atrás do ouro! Não sonhe com as coisas nesta ordem. Que dinheiro te dão? Que saúde te dão? Feche seu horizonte e fique só nisso. Toque para frente na vida! Você terá o prazer, você terá a riqueza!”

Isso é o contrário da formação católica!

A resposta pode vir assim:

Alguém — com A maiúsculo e letras de ouro, que é o próprio Homem-Deus — disse: “Não vos preocupeis, “nolite” esse “solliciti”, olhai os lírios do campo, não tecem nem fiam, entretanto, nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como eles… (Mt 6, 28)”… Tecer e fiar eram profissões lucrativas no tempo d’Ele, não tinha máquina, então o trabalhador manual muitas vezes era tecelão, fiava e tecia. Quer dizer: confiai! Confiai, porque isso se arranja. A saúde pode ser recuperada e também a fortuna que se perdeu. Pode ser ganha a fortuna que não se teve. Pode ser obtida a saúde que não se perdeu. É possível — não digo que é certo — mas é possível. Uma coisa não se perde,  não se recupera: é o tempo perdido!

Estado de amor ao maravilhoso

É preciso uma graça muito grande para que uma alma que se tenha deixado trancar nesses horizontes mais baixos volte a compreender e a querer o maravilhoso. É uma verdadeira conversão. Para essa conversão é preciso ter graças muito grandes e muito especiais. Uma graça assim se chama o “thau”!

Então, saibamos compreender o nosso “thau”: esse estado de amor ao maravilhoso, de amor desinteressado ao maravilhoso que é um dos aspectos por onde se vê o amor a Deus — amar a Deus sobre todas as coisas, primeiro Mandamento — esse aspecto, esse amor ao maravilhoso, que é um modo de focalizar o amor a Deus, eu não falei o que é porque o meu tema se tornaria inesgotável. O ver, por exemplo, as grandes figuras históricas canonizadas que refletiram a Deus de um modo, de outro modo, como foi etc. Por exemplo, na Basílica de São João de Latrão, onde mostram, no chão, a laje de pedra sobre a qual estava ajoelhado Carlos Magno na noite de Natal quando o Papa entrou e o coroou imperador, sem ele saber.

Se qualquer um de nós fosse dono dessa pedra, dava até a sua vida para defendê-la. É maravilhoso muito mais do que rubi, do que flor, do que não sei o quê. São duas almas. Carlos Magno, que em alguns lugares é venerado como Santo — a Igreja não se pronunciou — e que deixou um aroma de santidade na Igreja inteira até hoje, e Leão III, Papa, Vigário de Cristo, representante de Cristo na Terra, com o poder de ligar e desligar — “O que ligares na Terra estará ligado no Céu, o que desligares na Terra estará desligado no Céu” (Mt 16, 19) — coroando o Imperador do Sacro Império.

Pobre rubi,  pedregulho engraçadinho diante da majestade dessa cena. Os sinos da Cidade Eterna bimbalhando, o Papa que entra: Carlos Magno majestosamente humilde, ajoelhado naquela laje de pedra para rezar e o Papa que manda trazer uma coroa com a qual ele não contava e o coroa ali imperador do Sacro Império. Funda o Sacro Império! Que beleza!

Que esse Sol volte a iluminar o mundo

Quando uma alma conserva a inocência, ela encontra o “thau”. Mais ou menos como uma flor que está para se abrir encontra, de manhã, o primeiro raio de sol que bate.

Às vezes, chegamos a certa idade com a inocência reduzida a cacos. Mas, oh cacos preciosos! Eles são como aqueles peixes e pães da multiplicação. Bondosamente, Nossa Senhora os toma e os apresenta a Nosso Senhor: “Vede que cacos, Meu Filho” e Ele os recompõe.

Aí temos o ideal católico: Forte, puro, unido e se regozijando com coisas tão espirituais.

Isto tudo nos leva a muito altas considerações, nos leva à ideia de que devemos pedir a Nossa Senhora essa inocência. Devemos pedir para nós, devemos pedir para os nossos irmãos de vocação. Devemos pedir para todas as criaturas de Deus, porque Deus é infinito no seu desejo de bem e quer abarcar com sua grandeza e com sua bondade a criação inteira.

E então compreendemos o seguinte: há uma coisa em nossa época que tem uma beleza comparável à beleza de Carlos Magno sendo coroado por Leão III: É lutar para que esse Sol volte a iluminar o mundo.

Esse Sol é Deus, é Nosso Senhor Jesus Cristo! O vitral por onde entra esse Sol é Nossa Senhora!               v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/10/1985)

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