A necessária virtude da previdência

Dentre os valiosos conselhos legados por Dr. Plinio aos seus seguidores destaca-se, com a ênfase que nos tem sido dado conhecer ao longo destas páginas, o constante apelo à confiança na maternal e infalível misericórdia de Maria Santíssima. Disposição de alma essa que ele recomendava, sobretudo, para as encruzilhadas da vida espiritual e os momentos cruciantes do quotidiano terreno.

Porém, ao lado da confiança, empenhava-se Dr. Plinio em incentivar a prática de outra virtude, não menos importante e necessária que aquela — a da previdência. Assim, ensinava ele: “O homem previdente procura perceber o perigo quando este é ainda pequeno e remoto, pois melhor se prepara o confronto contra algo distante, e mais facilmente se vence o que tem menores proporções.

“Ora, na existência de todos os dias constatamos que a maior parte das pessoas não possui o hábito dessa previdência. Na teoria, todos concordam com o acerto de tal atitude de espírito, mas, de fato, poucos a observam. Deixa-se o perigo remoto e pequeno crescer, avolumar-se, imbuídos da ideia segundo a qual, em última análise, sempre pode sobrevir um imprevisto que afaste o risco. Desse modo, não nos aflige a preocupação de estarmos atentos quanto a uma eventualidade ruim. Esta, provavelmente, se resolverá por si mesma.

“Ademais, aos imprevidentes acode amiúde a noção de que para tudo há o famoso ‘jeitinho’: caso o perigo se torne grande, ao invés de se fazer um imenso esforço e preparar uma tenaz investida contra ele, dá-se um ‘jeitinho’ e o mal se afasta…

“Devemos nos lembrar, porém, desta outra verdade: se o ‘jeitinho’ por vezes soluciona, o mínimo que se pode dizer é que por vezes não nos socorre. E se alguém não deseja ser derrotado em nenhuma circunstância, o remédio é ser continuamente previdente, pois, do contrário, num belo momento ele não prevê o perigo, este cresce de modo súbito e o estrangula. Portanto, quem possui o senso da responsabilidade e do dever, não pode pensar de outra forma.

“Essa disposição de alma, mais do que em relação às dificuldades temporais, vale para enfrentar os perigos da vida espiritual. Começa a se delinear em nós um pequeno defeito. Se o combatermos de imediato, nossa integridade espiritual estará salva. Se lhe opusermos resistência apenas quando ele avulta, já nos tornamos débeis: diante do defeito fraco, o homem é forte; diante do defeito forte, o homem é fraco.

“Cumpre, pois, termos uma vigilância continuamente voltada para nossa vida interior. Importa sermos desconfiados contra nós mesmos. De Plinio Corrêa de Oliveira quem mais deve desconfiar é Plinio Corrêa de Oliveira, pois o principal responsável por mim junto a Deus e à Santíssima Virgem sou eu próprio. E como me sei concebido no pecado original, portanto com más inclinações e defeitos, devo nutrir desconfiança contra essas imperfeições, não lhes fazendo concessão alguma, vendo todos os ardis que a fraqueza humana pode sugerir em mim para ceder a elas. Desse modo as poderei vencer. Se não combato a pequena lacuna, a armadilha quase imperceptível, dentro em pouco estarei na voragem de uma tentação sob a qual posso sucumbir.

“Vigiai e orai para não cairdes em tentação, recomendou o Divino Mestre. Quer dizer, é preciso vigiar, é necessário prever. O homem vigilante e previdente não se assusta com a proximidade do perigo, pois já se preparou para enfrentá-lo, planejou todos os lances da luta e compreende que fez o que devia ter feito. Sobretudo suplica o misericordioso auxílio de Nossa Senhora, principal fator de qualquer êxito na vida espiritual. Nosso próprio esforço será indispensável, porém secundário: o elemento primordial é a graça divina, obtida pelo Sangue de Jesus Cristo, sempre sob o poderoso amparo de Maria Santíssima.

“Pelo contrário, o homem imprevidente e sem vigilância procura não pensar no perigo e quando este se apresenta, não sabe como agir. Aturdido, não encontra os meios adequados para se defender em tal confronto. Pode ser derrotado. Já o vigilante, mesmo diante do revés, não se deixa esmorecer. Recobra forças e novo ânimo face ao infortúnio. Sua consciência está tranquila, pois ele procedeu como devia. Sabe que Nossa Senhora o protegerá ainda mais. Outras e maiores vitórias lhe estão reservadas.”

Plinio Corrêa de Oliveira

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