Maravilhas excogitáveis

Como será a época áurea, o Reino de Maria? Além de um esplendor da graça, haverá construções tendentes ao paradisíaco,segundo comentários de Dr. Plinio.

 

Considerando a quase inesgotável variedade de recursos com a qual o Criador dotou a natureza, a fim de que dela se servisse o homem para embelezar este mundo, vêm-nos ao espírito algumas reflexões acerca dessas mil possibilidades postas ao alcance do engenho humano.

Palácios de porcelana, avenidas de cristal

Por exemplo, não seria difícil construir um prédio inteiro, digamos uma catedral, utilizando-se o material com que hoje são feitos vasos e outros objetos artísticos. Aliás, o homem mandar fabricar as pedras com as quais edificaria seus próprios palácios, é algo que vai além de toda ideia até agora concebida. Bem entendido, não se trata dessas lâminas de granito aplicadas às paredes, sabendo-se que tal não passa de um revestimento.

Não. Se me fosse dado mandar erguer uma casa ou edifício, gostaria que tivesse grossas paredes, inteiramente constituídas de material cujo colorido fosse semelhante ao de um belo vaso. De maneira que, sendo perfuradas com um prego de lado a lado, encontrar-se-ia a mesma matéria com aquela cor. Nada, portanto, de falsos revestimentos com chapas de granito ou de mármore. Falsificação, mesmo nesse terreno, não tem valor algum.

À primeira vista, essa concepção pode parecer muito bonita, porém inexequível.

Ora, cumpre levar em conta que o homem, com as modernas possibilidades industriais, pode elaborar matérias-primas mais belas do que as pedras preciosas que se acham na natureza, atingindo um grau de esplendor inenarrável.

Claro está, não se deve imaginar isto para qualquer casa ou construção. Conviria, por exemplo, para uma “Via de la Conciliazione”, em Roma. Naquele eixo que liga o trono de São Pedro ao Castelo de Sant’Angelo, poder-se-ia conceber uma pavimentação  com gemas de raro quilate, a fim de honrar o Papa. E se podemos imaginar uma laje de asfalto ininterrupta, de ponta a ponta de uma avenida, por que não cogitar num piso todo feito de porcelana especial? Ou então de um cristal único? Seria algo magnífico e incomparável, tanto é indizível o  até onde os recursos da inteligência e da fantasia são capazes de chegar.

Importância do panorama para as belas construções

Agrada-me tratar desse tema, pois vivo como que imerso nessas cogitações. Entretanto, é preciso ter presente que tais maravilhas devem ser concebidas apenas para determinados tipos de panorama e de povo. Com efeito, existem paisagens nas quais elas se encaixam perfeitamente. Por exemplo, na Baía de Guanabara.

Como é aprazível um passeio por esse espetacular “cartão postal” do Brasil! Sair de manhã e percorrer toda a baía até à noite, presenciando o pôr-do-sol, ao mesmo tempo que um bom cicerone nos vai descrevendo seus pontos mais salientes e recordando os acontecimentos históricos que ali se desenrolaram, como a heroica resistência dos portugueses contra os

invasores do Rio de Janeiro. Sem dúvida, um programa de encher a alma. Sobretudo se considerarmos, então, que essa Baía de Guanabara seria o cenário perfeito para a edificação daqueles prédios e casas maravilhosas.

E há no Brasil lugares junto ao mar ou a certos rios — como o Tocantins, o Araguaia, etc. — que podem se prestar a coisas muito bonitas, ao contrário de outros locais em que algum palácio desses ficaria completamente ridículo.

No meu entender, o continente onde essas realizações se encontrariam à vontade é a Ásia. O que imagino dos sóis, das solidões, das matas, dos desertos asiáticos, serve de modo magnífico para esses palácios e construções. E a África? Sim e não, de maneira análoga ao Brasil. Algumas regiões se prestam soberbamente, e outras são espantalho para coisas assim.

Esse tema é vasto, supõe ziguezagues, mas deve ser visto de frente: esses castelos, essas edificações imaginárias não servem para o ambiente europeu. A Providência concedeu à Europa a possibilidade de obter, com materiais sóbrios — o granito, por exemplo — belezas tão superiores que quando se vê alguma catedral, algum castelo gótico feito com essa pedra, aliás de boa qualidade, é-se levado a perguntar se esses materiais por mim imaginados têm algum valor diante daquele criado por Deus.

Questões como essas precisam ser postas, de modo inexorável, para apreender uma verdade sólida e saber que não se está delirando.

Diferentes formas de “sonhar”: do oriental, do europeu

Tome-se, por exemplo, a arte dos lambris que utiliza madeiras de qualidade para revestir paredes interiores. Às vezes, em simples casas campestres, a Europa atingiu um requinte de bom gosto nessa arte, demonstrando toda a capacidade que recebeu do Criador para produzir o maravilhoso, empregando materiais não diretamente maravilhosos. Ela soube engendrar possibilidades de fausto em coisas que a fineza e o talento humanos deveriam nobilitar, mas que, de si, não revelavam uma beleza estuante, brotando do seu íntimo, como em certos materiais da Ásia.

Resultado, temos um tipo de arte na Europa que valoriza o intelecto, o bom gosto, a formosura da alma do homem, não só enquanto voa para o que há de mais esplendoroso, como também enquanto reprime e freia o seu voo, dando a conta, o peso e a medida de si mesma. É a beleza da austeridade, da simplicidade.

É fácil falar das avenidas constituídas de porcelana, mas importa ter em vista o outro lado dessas concepções. Certas brumas, como as de algumas cidades poluídas, são feias. Porém, como é bonito imaginar o “Big Ben” emergindo em toda a sua elegância de dentro das névoas londrinas! E assim, vários contrastes nos fazem ver a necessidade de um extraordinário senso das coisas, para se captar tudo isso sem correr o risco de errarmos em nossa avaliação.

Nessa linha de considerações, vale dizer que é próprio do oriental, quando ergue um lindo palácio, pensar o seguinte: “Isso eu fiz, mas poderia construir outra coisa mais bela…”. E seu charme está em que ele sempre imagina algo de maravilhoso, superior, a ser realizado.

Já quando se analisa o ocidental, e mais especialmente o europeu, no interior de um palácio que construiu, ele ali é a obra-prima. Não podemos imaginar uma Maria Antonieta sonhando com um Versailles mais bonito. Ela sonhava em ser mais ela mesma ali dentro. É outra escola, outro rumo, outra avenida para  espelhar as magnificências de Deus.

Grandeza dos povos no Reino de Maria

E devemos muito tomar essas verdades em consideração, para sabermos qual a maravilha das maravilhas convirá melhor para o Reino de Maria. Será uma asiatização, isto é, uma nota asiática a vibrar sobre o mundo inteiro? Ou haverá outras características possíveis? Quais e como serão? Até que ponto elas se inspirarão nas notas que povos diversos deixaram?

Tais perguntas precisam ser ventiladas, para se entender a vastidão do tema em que nos movemos, e para raciocinarmos, em vez de sonhar. Porque não estou sonhando, mas pensando.

Então, para cogitarmos sobre essa futura era marial, não sabemos em que nações a Santíssima Virgem recolherá materiais para o reino d’Ela. Certa vez me caiu nas mãos um álbum cuja capa trazia a fotografia de um afegão. Era uma plenitude terrena de homem, extraordinária! Logo me veio o intenso desejo de converter aquele povo, como quem toma um objeto precioso e diz: “Esse vai para o altar de Nossa Senhora!”. De fato, é maravilhoso imaginar uma ordem religiosa ou um movimento de leigos católicos, constituídos nesse povo com tal plenitude humana de força, de equilíbrio, de bom senso.

Uma coisa será esse Reino de Maria se realizando inteiramente no Brasil, outra nas nações irmãs da América espanhola, outra nos Estados Unidos, outra no Canadá, etc. Quais serão os elementos humanos com que esse Reino será edificado?

Tudo isso entra em junção para se compreender como será essa época áurea da Cristandade, existindo sob a maternal benevolência de Maria e sob uma particular ação do Espírito Santo nas almas, porque será o Reino de uma plenitude de graça, de senso católico, de amor à Igreja e a Nosso Senhor Jesus Cristo, como não podemos fazer ideia…

 

Plinio Corrêa de Oliveira

Revista Dr Plinio 73 (Abril de 2004)

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