Florença e a perfeição das formas – II

Cidade com edifícios de proporções perfeitas, Florença, como todas as antigas urbes, viu transformarem-se em museu seus palácios e outras bonitas residências. Isso se deve ao fato de que seus habitantes, em determinado momento, quiseram romper com Aquele que disse de Si mesmo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6).

 

Por certo, nesse casario há residências onde as escadas devem ter alguns degraus podres, as donas de casa brigam umas com as outras, de andar para andar, ameaçando-se com aquele rolo para fazer macarrão, e se vê um velho subir até o quarto andar, no qual ele foi morar por ser mais barato, mas tem medo por causa do coração… À noite ele sentiu umas dores no peito e não sabe se é bronquite ou começo de enfarte; então saiu muito preocupado e agora sobe devagarzinho, levando sua bengalinha e o jornal do dia debaixo do braço, e fumando o último cigarrinho que ele aspira até o fim, porque não pode comprar muitos; e vai curtir sua pobreza e seu isolamento junto a um gato no quarto que ele ocupa.

O povinho que a Revolução massacrou

Entrevê-se um formigamento de gente nesse casario. De gente vivaz, que fala, comenta, canta, trabalha, que quando dorme ronca; enfim, gente estuante de vida e, exceto o meu velho do gato, o resto todo com muita saúde. E esse velho, a doença dele é só velhice. Mas essa é inevitável…

Esse formigamento de vida não há em um arranha-céu moderno, nem nas pobres “vilas-Moscou” das periferias de certas cidades. Ora, é este o povinho que a Revolução massacrou, proclamando a soberania popular. Em Florença, e em outros lugares, algo disso ainda vive.

Notem, agora, aquela outra ponte que não tem construções colaterais e cujo traçado pode ser melhor apreciado. Vejam a beleza da ponte e também da iluminação pública. Que lampadários bonitos, delicados! Comparem com a iluminação que encontramos, por exemplo, em determinadas avenidas de São Paulo: as luminárias parecem esqueletos de não sei que animal pré-diluviano, que tinha um pescoço compridíssimo encimado por uma cabecinha inútil. Nesta ponte, ao contrário, tudo é proporcionado.

A propósito da arquitetura desta ponte, vem-me à memória a seguinte comparação. A Ponte Alexandre III, de Paris, é muito bonita, construída no século XIX, porém ultra enfeitada.

Esta aqui não tem um enfeite. A beleza está na linha dos arcos, mais nada. É o que se chamaria, na linguagem de hoje, um estilo despojado. Isso faz lembrar, em relação aos enfeites, um caso que se contava na Grécia.

Realizou-se um concurso de arte — creio que de pintura, não me lembro bem —, no qual concorriam artistas de vários lugares. Um deles, persa, representou uma mulher com um traje riquíssimo que visava realçar a beleza de sua obra. Outro pintor, um grego, figurou uma grega com uma simples túnica branca.

O júri deu a primazia à pintura grega.

O persa protestou, argumentando que a sua estava muito melhor vestida. Os gregos responderam: “Tu a fizeste rica porque não soubeste fazê-la bela”.

Uma construção estética reputada perfeita

Vemos em outra fotografia a Catedral de Florença, toda feita de mármore branco e preto. A mesma coisa que nós encontramos nas fachadas laterais da Catedral de Orvieto, onde há mais mosaicos. Notem o choque: Florença, muito mais importante e mais rica do que Orvieto, nem tem comparação, ousa fazer para si uma catedral que não possui um mosaico na frente. Mas a superioridade de Florença, segundo o meu modo de entender, está exatamente em que cores bonitas, mosaicos, etc., são enfeites fáceis, para imaginações débeis. Na Catedral de Florença existe uma proporção perfeita entre a torre, o corpo da igreja e a abóboda com aquela torrezinha em cima. E depois o tamanho das naves laterais. E isso está tão bem calculado, como as rosáceas nas portas, as colunatas, a rosácea grande, que é uma construção estética reputada perfeita. Então, a reflexão, o equilíbrio, a profundidade, zombam do ornato, do charme, da graça, e Florença tem uma beleza autêntica a qual resiste à metralhagem dos olhares analíticos que querem encontrar um defeito.

A Catedral parece dizer: “Eis-me aqui, despojada e sem maquiagem; eu sou eu, veja como sou linda!”

Não sou um especialista em matéria de arte. Não afirmo, portanto, como quem se acha entendido, o seguinte. Mesmo porque o valor do argumento da autoridade de incontáveis críticos, que têm achado isto perfeito, pesa mais do que o meu. Mas, em minha opinião, essa cúpula se fecha muito belamente em cima, tem uma proporção bonita com a barra branca sobre a qual ela se pousa, porém ela é muito pesadona para o conjunto do edifício. Ao menos eu a sinto assim.

Vemos na torre da Catedral, por exemplo, alguns vestígios do gótico nos vários andares, mas muito poucos. É muito bonito como os andares vão se afinando discretamente para cima. O branco está utilizado aqui magnificamente. Os vários espaços e dimensões, os ornatos dos diversos elementos, tudo está perfeitamente bem posto, e é muito bonito, não tem dúvida.

Mania do despojado

No interior da Catedral o despojamento vai bem mais longe. Não se pode negar que as dimensões, a altura das colunas são muito bonitas, que os arcos estão muito bem colocados, e que tudo quanto a Catedral apresenta é muito belo. Mas se tomamos, por exemplo, o altar do fundo, vemos como ele é pequeno em comparação com o tamanho da igreja, e como fica um espaço em cima, provavelmente destinado ao arejamento e à entrada de luz, mas que não traz nenhuma ideia piedosa. São meras janelas.

Se fosse uma arquitetura elaborada segundo outra escola artística, essas colunas teriam, em cada ângulo, um nicho com a imagem de um Santo portando seu instrumento de martírio. Ali não: tem-se a impressão de que uma tropa de ladrões entrou e roubou os ornatos da igreja.

Minha posição pessoal diante do monumento: respeito, admiração, vejo inegavelmente grandes valores artísticos, mas minha afinidade não vai para isso. A mania do despojado parece-me conter uma censura a Deus que não fez um universo despojado. É bonito que apareça, de vez em quando, alguma coisa despojada. Com isso eu concordo. Mas que haja a mania do despojado, com isso eu não posso concordar. E é como se apresenta a arte florentina.

Os entusiastas do despojamento dirão: “Mas Dr. Plinio, assim aparece melhor a linha lógica”. Eu respondo: “Está bem, mas nem tudo que aparece melhor é bem feito”. Isso é para pessoas incapazes de perceber a linha dentro da pluralidade dos ornatos. Não julgo que eu esteja afligido por esse mal. Em uma obra de arte com uma muito bela linha e lindos ornatos, estes não estragam a linha.

Residência de uma antiga família transformada em hotel

Ainda em Florença, mas nos arrabaldes da cidade, há um hotel excelente. Ao que tudo indica trata-se da residência de uma antiga família de banqueiros — Florença foi um centro bancário muito grande — ou de nobres que viviam fora da cidade na opulência, e cuja propriedade foi transformada em hotel.

A mim, que impressão dá? Como se trata de uma casa de uma família — seja de nobres ou de banqueiros — portadora de certa tradição, esta eleva e dignifica a vida de família, porque dá a ela uma nota de eternidade. A família percebe melhor as obrigações que lhe impõe um grande passado ao qual se sente ligada. Os mortos parecem ornatos dos vivos. E por outro lado, os que estão para nascer parecem a luz que entra para a família, a qual vive há séculos e pretende viver séculos ainda, na beleza de uma grande continuidade familiar.

Vemos ali uma casa grande construída para se levar uma vida de família, não como se entende hoje, dentro de um apartamento, mas com quartos de dormir grandes, salões espaçosos; uma residência feita para que se passe muito tempo nela, com conforto, tempo para pensar, ler, conversarem uns com os outros, para formarem grupos de dois ou três e irem passear pelo jardim que, aliás, é magnífico.

Podemos imaginar a magnificência de uma recepção dada numa propriedade como essa, à noite, com orquestra tocando, senhoras e senhores com trajes de gala, condecorações, desse tipo de recepções com tanta categoria que até os prelados do lugar apareciam. Então a hora da chegada do grão-duque, do cardeal-arcebispo, de tal autoridade militar, de tal grande artista que vai cantar, outro que vai acompanhar ao piano… Tudo isso em meio à conversa que rumoreja, enquanto incessantemente garçons fazem circular grandes pratos com pequenas delícias, bandejas repletas com taças e garrafas com bebidas. Se a noite é quente, uma parte dos convidados sai e conversa também do lado de fora.

Tudo isso foi transformado em um hotel muito bem mobiliado, onde se paga para estar, e no qual um turista anônimo entra, mete-se nas cobertas durante a noite, e no dia seguinte sai.

Notem o conforto, a estabilidade, a dignidade. Não é verdade que uma família como essa pareceria estar destinada a durar séculos? Entretanto, está morta, como uma concha que se encontra na praia, na qual o respectivo caramujo morreu. Por que morreu? Porque essa gente toda foi rompendo com Aquele que disse de Si mesmo: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6).

Paganizou-se, estancou.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 23/11/1988)

 

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