A felicidade: fruto da inocência

A procura da felicidade representa importante papel em todas as etapas da vida de uma pessoa, sobretudo na infância. Porém, onde de fato encontrá-la?
Comentando como esse problema se punha em sua mais tenra idade, Dr. Plinio nos mostra que a alma inocente vê em tudo uma imagem de Deus, e, por isso, constantemente sente sua alma inundada da mais pura e verdadeira felicidade.

 

A fim de desenvolver o tema que me foi proposto — onde encontrar a verdadeira felicidade? —, proponho rememorar meus tempos de juventude com a esperança de encontrar um denominador comum entre a concepção de felicidade dos jovens em 1984 e dos de 1924.

Ao longo dos tempos, um mesmo equívoco…

A respeito do conceito de felicidade, as pessoas ao longo dos anos têm concebido os mesmos equívocos com algumas poucas diferenças. Assim, parece-me que analisando como este problema se punha em minha juventude, poderei encontrar uma resposta útil também aos jovens que vieram meio século depois.

Naquela época, ainda não se adotara a semana inglesa; então, no sábado à tarde, os colégios e comércios iam se fechando e a São Paulinho se preparava para gozar a felicidade.

No que consistia a felicidade de um jovem comum, como era o meu caso, uma vez que ainda não tinha conhecido o movimento mariano, se bem que, por um auxílio especial de Nossa Senhora, tinha Fé e levava uma vida pura?

As alegrias da vida sem pecado

O que primeiro se me apresentava era gozar a vida sem pecar, porque, tendo Fé, eu sabia que não devia pecar. Ora, quanta coisa agradável pode-se fazer sem pecar! Por exemplo, quando eu chegava em casa, meu pai me chamava, abria a carteira e dizia: “Está aqui o seu dinheiro da semana!” Este, como é natural, era gasto todo no final de semana.

A quantia que eu recebia de meu pai era suficiente para passar com largueza o final de semana. Além disso, como eu sempre estava junto de meus primos, cujas famílias eram mais abastadas do que a minha, eu participava de alguma forma do luxo deles.

Assim, terminados os afazeres do sábado, nos telefonávamos e marcávamos um ponto de encontro. Começavam os passeios: confeitarias, cinemas, etc. Todos estes ambientes de nenhum modo tinham a torpeza que apresentam hoje.

No domingo de manhã, eu ia à Missa às onze horas na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, depois da qual voltava para casa. Ao chegar, eu encontrava preparado um saboroso almoço, em geral um cuscuz delicioso acompanhado de cerveja.

Agradáveis momentos na vida familiar

À noite, eu ia jantar em casa de um tio, onde se reuniam quase trinta pessoas, todos os parentes jovens. Lá estava preparada uma mesa enorme, repleta de frios do melhor restaurante de São Paulo. Terminado o jantar, muitos se dispersavam e voltavam para suas casas, enquanto alguns, entre os quais eu e minha irmã, subíamos a um terraço muito agradável, de onde me lembro especialmente, ter contemplado belas noites enluaradas. Ali permanecíamos até mais de meia-noite, conversando sobre os mais diversos temas.

Quando chegávamos em casa, após a prosa no terraço, minha mãe geralmente estava recostada em seu quarto, com o terço nas mãos. Eu me sentava junto à sua cama e começava outra conversa, também sobre todos os assuntos possíveis. Ali permanecia por volta de uma hora, depois eu ia para o meu quarto, onde ainda rezava um pouco e dormia contente, após aquele final de semana no qual eu tinha experimentado várias, intensas e, às vezes, contínuas sensações de bem-estar.

Desta forma, tinham-se justapostas várias sensações muito agradáveis, às quais se somava uma intensa impressão de juventude trasbordante de saúde e que tem diante de si um futuro promissor.

Um pouco pelo que me diziam, mas sobretudo pelo que eu analisava, percebia estar na mente da maior parte das pessoas com as quais eu tinha contato a seguinte ideia a meu respeito: “Você tem tudo para ser feliz! Talvez pudesse ter mais, caso conseguisse obter mais dinheiro, bem-estar e luxo. Se você morasse em Paris ou em Viena, certamente você seria mais feliz. Mas, o que você tem é suficiente para encher uma pessoa de alegria. São poucos os jovens em São Paulo que gozam de uma felicidade como a sua!”

Para ser franco, devo dizer que eu me empanturrava dessa felicidade, e quanto mais sensações gostosas tivesse, para mim melhor. Mas, às vezes algo cortava e interrompia por instantes tais impressões. Nessas ocasiões eu me punha o problema: Será que isso é de fato a felicidade?

Dificuldades da vida e felicidade

Era, sobretudo, nos dias de semana — os quais apresentavam fastios de toda ordem em contraste com o bem-estar do fim de semana — que me vinha esta questão. Começava com a educação que eu recebia em casa, a qual supunha a toda hora pequenas advertências do seguinte gênero: “Não se entra na sala assim; não se põe o guardanapo deste modo; não se mexe com a cadeira desse jeito; dê risada mais moderada; gargalhadas imoderadas não são de gente educada…” Bastava relaxar um pouco para vir o aviso: “Se você relaxar, vai ser evitado pelas pessoas educadas, e muitos vão afastar-se de você”.

Eu então pensava: “Mas, eu gosto de dar gargalhada…” No entanto, percebia que eu não podia fazer aquelas coisas e precisava dominar-me.

Então, eu me perguntava: “Mas, se o fato de dominar-se é desagradável, será que ele não é contrário à felicidade?”

Lembrava-me que algumas vezes, estando numa festa, eu tinha vontade de não ser amável com ninguém, mas a educação indicava que eu fosse agradável a todo mundo. Aquilo exigia que em certas ocasiões eu passasse um tempo enorme conversando com a pessoa mais enfadonha que se encontrava na festa, até o momento em que alguém, desavisado, entrasse na conversa e me desse a ocasião de com um sorriso muito amável poder me retirar…

A educação era um dos problemas que pareciam opor-se à felicidade, mas havia muitos outros…

Ser ilustre ou ser feliz?

Por exemplo, à vista de homens maduros eu percebia que todos, à medida que ficavam mais velhos, deveriam ir graduando-se e subindo de condição, de maneira a, em dado momento, ter ascendido a uma condição ilustre em relação ao que fora seu ponto de partida.

Notava também que quem não subisse essa escalada estava fadado a ser objeto do desprezo — ainda que de modo velado e amável — dos outros. Esperava-se, portanto, que também eu galgasse essa escadaria, de maneira a ser notavelmente ilustre.

Eu pensava: “É verdade, viver sem realizar nada não é felicidade. Pois, também um porco no chiqueiro vive desta forma, apenas se alimentando e engordando para ser morto e servir de alimento a outros. Ele não faz nada, e por isso não têm uma história. Ademais, sinto impulsos que me levam a fazer algo; e compreendo que se eu não fizer nada não terei felicidade. Mas como isso é duro! Para ser algo na vida é preciso estudar, saber coordenar as ideias, aprender um vasto vocabulário e exprimir-se com perfeição e clareza, de modo a tornar-se agradável. Como aprender tudo isso? É preciso apertar a cabeça e fazer esforço duro!”

Isso era penoso para mim, pois eu possuía uma enorme tendência à preguiça e deliciava-me em não fazer nada. Para mim, isso era um dos elementos constitutivos da felicidade.

Mas, logo percebi que o fruto do “far niente”(1) era dos mais amargos. Ou eu gozava as delícias de não fazer nada ou as de ter feito algo na vida. Qual delas escolher?

Descortinava-se, então, diante de mim, uma vida inteira de esforço para chegar ao pináculo. Na insegurança e na incerteza de não ter êxito como várias pessoas que conheci, as quais terminaram infelizes, eu pensava: “Assim eu não posso ser. Mas para isso eu devo levar uma vida duríssima”. E então, me perguntava: “Felicidade, onde estás?”

As amarguras da vida e a felicidade

Por outro lado, eu nasci naturalmente muito afetivo, gostando das pessoas e querendo que elas gostem de mim. Mas logo percebi que isto era uma ilusão.

Lembro-me de haver em meu tempo uma brincadeira que consistia em entrar em um automovelzinho todo ladeado de borracha, o qual devia ser conduzido de modo a ir batendo uns nos outros. Eu pensava: “A vida é como este carrinho, mas sem as borrachas! Nela se recebe pancada de todos os lados; a lei que a rege parece ser como a lei da selva, a lei das feras”. Mais uma vez a indagação: Felicidade, onde estás?

Uma de minhas preocupações mais sérias vinha ao ver certos homens ateus, os quais eu conhecia em grande número. Diante deles me perguntava: “Será que eu também vou perder a Fé?” A isto eu preferia morrer!

Estes eram os problemas que mais pesavam ao jovem que queria ter uma vida feliz naqueles idos anos de 1924.

A felicidade está no porvir?

Eu apenas entrava para a vida, tinha 16 anos, e o número de meus problemas deixava-me pasmo. Percebia que os demais jovens do meu tempo não falavam sobre seus próprios problemas, pois ficava feio. Pelo contrário, cada um devia fingir ser perfeitamente feliz, o que me parece ser do mesmo modo até hoje.

Mas, com todos estes problemas eu olhava para o futuro no qual parecia ver uma ponta de felicidade. Imaginava que ficando velho teria uma vida sossegada, pois não sentiria mais essa pressão das pessoas que me circundavam. Poderia, então, me dedicar a leituras, teria dinheiro necessário para viver bem, faria algumas viagens. Encontraria, enfim, o porto para o qual eu rumava.

Não suspeitava que na idade onde eu esperava encontrar sossego e despreocupação, teria de estar em meio às mais duras lutas e dificuldades.

No entanto, apesar de estar à espera de uma felicidade futura, eu guardava a recordação de já ter sido muito feliz. E nisso está o cerne da questão.

Ai que saudades da aurora de minha vida…

Perguntava-me então: Quando é que eu realmente fui feliz? Lembrava-me que em minha primeira infância, antes de entrar no Colégio São Luís, até os dez anos de idade, mais ou menos, eu tinha sido enormemente feliz. Que felicidades inundavam minha alma naquele tempo e que indizível alegria eu sentia dentro de mim! Perguntava-me se só eu sentia aquilo. E na leitura de certas obras literárias, às vezes de autores brasileiros, mas quase sempre de franceses, eu encontrava referências a esta felicidade da infância. Um deles, Casimiro de Abreu, dizia: “Ai que saudades da aurora de minha vida, de minha infância querida, que os tempos não trazem mais!”

De fato, lembrando-me das intensas alegrias que eu tinha naquele tempo, comecei a filosofar sobre elas e analisar quanto eram superiores às que tenho hoje.

Recordo-me de ter lido um dito de Napoleão que, apesar de minhas restrições em relação ao autor, encheu-me de admiração. Certa vez perguntaram-lhe: “Qual foi o dia mais feliz de sua vida?” Pensava que ele responderia ter sido o dia de sua coroação. Pois, qual não teria sido sua satisfação ao ficar imperador?

Porém, para minha surpresa, Napoleão respondeu: “Foi o dia da minha Primeira Comunhão.” Logo que ouvi isto me veio à lembrança o dia da minha Primeira Comunhão, bem como outros inúmeros fatos de minha infância, os quais me encheram de saudades e fizeram-me pensar o seguinte: “Será que vale a pena todo este esforço para ser algo na vida, uma vez que quanto mais nela se avança, mais se tem impressão de estar deixando para trás aquilo que se busca? Não haverá algo de errado neste caminho?”

Inigualáveis alegrias da infância

Em meu tempo de infância, a vida se dividia em duas partes: os dias excepcionais e os dias comuns.

Os dias excepcionais eram geralmente os de festa. Neles eu sentia certas alegrias que provinham mais do interior de minha alma do que da própria festa.

Lembro-me, por exemplo, de um parque que havia na Avenida Francisco Matarazzo, chamado Parque Antárctica, o qual era aberto ao público e muito bem organizado, com um jardim plantado à la alemão e, portanto, muito bonito e agradável, apesar do que, poucos o frequentavam.

No dia de Páscoa, meus primos e eu íamos para lá, dirigidos por Mamãe, a qual era assistida por duas ou três “Fräuleins”. Sendo o parque enorme e possuindo vastos canteiros verdes, lá se podia correr à vontade, desfrutando do ar puro, da beleza e do perfume das flores. Ali permanecíamos brincando durante muitas horas.

Dentre outras coisas, lembro-me de que tirávamos de uma bonita caixa, um jogo chamado “croquet” o qual consistia em alguns paus muito bem pintados que eram fincados no chão de modo a formar um arco dentro do qual se devia fazer passar as bolas. Entre os que jogavam pior estava eu, talvez porque, como todo brasileiro, eu não levava o jogo muito a sério e não fazia questão de ganhar a partida, mas sim de gozar daquela alegria.

Terminados os jogos, chegava a hora dos ovos de Páscoa. Enquanto nós estávamos brincando, Mamãe com as “Fräuleins” tinham escondido os ovos pelo parque. Ao terminar, chamavam as crianças para começarem a procurar. Cada criança poderia ficar com os ovos que encontrasse. E como também para isso eu não tinha muita agilidade, Mamãe acompanhava-me com o olhar, e quando percebia que eu ia me aproximando dela um tanto desolado por estar com fome e não ter encontrado nenhum ovo, ela então sorrindo dizia: “Filhão, vá por ali que você vai encontrar uma coisa muito boa”.

Naquilo tudo eu sentia uma alegria muito superior à da comida, pois ela provinha de algo que estava no fundo de minha alma, o qual me enchia de satisfação.

Terminado o passeio, voltávamos para casa na hora da sesta, o que — ao contrário de todas as outras crianças — eu achava uma delícia. Eu ia contente para a minha cama macia, num quarto muito agradável, o qual já estava em certa penumbra, pois as venezianas eram fechadas, enquanto as janelas permaneciam abertas, deixando entrar um delicioso ar puro. Com a pouca luminosidade que havia no ambiente, eu permanecia prestando atenção no papel de parede de meu quarto, o qual era de origem francesa e tinha figuras de medalhões, pendentes de fitas azuis; eu os analisava enquanto ouvia os ruídos da cidade até adormecer tranquilo.

Só não era feliz a hora de levantar-me para estudar… Porém, ainda assim, este esforço era largamente compensado por todo o resto. No que consistia, então, essa felicidade?

À procura de um sentido para a vida

Quando essas perguntas começaram a surgir em meu espírito, compreendi que se eu encontrasse no fundo de minha alma a resposta para elas, teria com isso encontrado aquilo que deveria dar sentido a toda minha vida.

Levei anos refletindo sobre isso sem conseguir decifrar inteiramente a questão. Cheguei a pôr-me o problema de que aquilo não passava de mera imaginação. No entanto, lembrava-me que ao lado de toda aquela felicidade, havia algo superior, proveniente da sensação de ter a consciência tranquila.

Recordo-me, por exemplo, que quando eu fazia bem meus estudos, a “Fräulein”, geralmente, dava-me algo que eu gostava de comer. E quando eu cumpria meu dever em algo mais relevante, era a própria Dona Lucilia que me agradava de forma especial. Assim, a ideia de mérito e de prêmio para a consciência justa, ou seja, para aqueles que são bons, levavam ao auge a sensação que eu tinha de felicidade. Parecia-me com isso ter encontrado o ponto pelo qual até mesmo o cumprimento do dever tornava-se atraentíssimo. Tratava-se da feliz sensação de ter cumprido o dever.

A constante alegria da alma inocente

Dessa forma, minha ideia a respeito da felicidade de infância foi se acrisolando, até chegar à compreensão de que ela era fruto da inocência. Ou seja, daquele estado de alma próprio aos que não tiveram a desgraça de ofender a Deus.

Lembro-me das borboletas azuis e verdes que me deixavam encantadíssimo, e me levavam a tentar apanhá-las, pois a inocência me fazia ver nelas um brilho, um fulgor e uma beleza que me deleitavam de forma inexplicável, o que no fundo provinha do fato de ver refletido nelas algo de Deus. Aquilo me fazia sentir um antegozo da alegria celeste, fruto da eterna contemplação da face de Deus.

E não só em uma borboleta ou alguma outra coisa, mais em tudo a alma inocente vê uma imagem de Deus, por isso sente constantemente sua alma inundada da mais pura e verdadeira felicidade.

Minha maior alegria

Entretanto, eu tive a maior felicidade de minha vida em algo que me encheu de entusiasmo, desde pequeno: a Santa Igreja Católica Apostólica Romana! Mais do que qualquer panorama ou qualquer flor, incomparavelmente mais do que qualquer delícia ou iguaria, ela me falava à alma.

Isso me dava a convicção de que por mais que fosse preciso sofrer, lutar, enfrentar dificuldades para levar uma vida digna, na Igreja eu encontraria toda a alegria que nesta vida se pode ter.  v

 

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 12/5/1984)

Revista Dr Plinio 155 (Fevereiro de 2011)

 

 

 

1) “Il dolce far niente”. Expressão italiana que significa “A doçura de não fazer nada”.

 

Envie seu comentário

Você pode estar interessado