Espírito de reparação

Devido aos pecados cometidos em todo o mundo, ao comemorarmos o Santo Natal precisamos também fazer atos de reparação. Nossa Senhora, desde o primeiro instante em que Jesus nasceu, reparava junto ao Redentor os sofrimentos que Ele viria padecer.

Como estamos próximos da Natividade de Nosso Senhor, é interessante ter o pensamento voltado para esta grandíssima data.

Influxos da graça e do demônio no subconsciente

Tenho aqui uma ficha tirada das visões de Catarina Emmerich(1), que trata dos efeitos da vinda próxima de Nosso Senhor, sobre toda a natureza. Mas a palavra “natureza” é tomada não só no sentido dos reinos mineral, vegetal e animal, mas também e sobretudo do homem, quer dizer, de toda a Criação.

Então, Ana Catarina mostra que nas vésperas e com o nascimento de Jesus houve uma transformação, um movimento profundo nas almas e na matéria.

E isto é expresso de um modo muito bonito com estas palavras dela mesmo.

Todos os corações piedosos, que estavam aflitos com um santo desejo, palpitam sem querer nem saber, em presença da Redenção.

São estes movimentos profundos que há nas almas boas, quando alguma coisa grande se aproxima; elas sentem-se tocadas até o fundo para tudo quanto é bem, sem saber por quê.

Tudo está em movimento. Os pecadores sentem tristeza, ternura, arrependimento e esperança. Os que não querem arrepender-se, os pecadores empedernidos, os inimigos, os que hão de crucificar o Salvador sentem angústia, inquietação e confusão, cuja causa não compreendem, mas percebem um movimento indescritível no tempo, cuja plenitude se aproxima.

Dou muito valor a descrições dessa natureza, porque mostram muito os influxos profundos da graça e também do demônio no subconsciente das pessoas. Mas tocando no que a personalidade tem de mais interno e apresentando todo o papel do subconsciente nos grandes movimentos da História.

Movimento dos bons, dos maus e da natureza

Esta plenitude e a felicidade que traz consigo estão no coração puro, humilde e humano de Maria, que ora em presença do Salvador do mundo que n’Ela se fez Homem e que, como Luz feita carne, virá dentre em pouco a esta vida, a seus domínios, onde os seus não O conheceram.

Por que há homens que procuram e não encontram? Aqui eles deveriam ver que o bem produz sempre o bem, e o mal produz mal, quando não é destruído pelo arrependimento e pelo Sangue de Cristo.

Assim como os santos e os que vivem piedosamente, e as pobres almas do Purgatório, estão em constante relação entre si, trabalhando juntamente, ajudando-se e comunicando-se mutuamente os meios de salvação e santificação, assim vejo isto mesmo em toda a natureza.

Então há três movimentos: um de todos os maus, outro de todos os bons, e o terceiro, da natureza. Esses três movimentos são da ordem da Criação e, digamos, representam uma luta de uns com os outros, e são fatos fundamentais da História do mundo.

É inexplicável o que vejo, o que é simples e segue a Jesus recebe-O gratuitamente. Esta é a graça admirável deste tempo para sempre. Nestes dias o demônio está acorrentado, arrasta-se e treme. Por isso aborreço os animais que se arrastam pela terra.

Vejam que conclusão interessante! O animal que se arrasta pela terra é uma figura do demônio como, aliás, está escrito no Gênesis.

Também o demônio nauseabundo e detestável da heresia anda encurvado, e não pode fazer nada nestes dias. Tal é a graça eterna deste tempo.

Realmente, no tempo em que o Natal ainda não era comercializado, não estava transformado numa feira para impor o escoamento de produtos industriais, custe o que custar, sentia-se muito isto: uma doçura, uma cordialidade, uma alegria celeste, sobrenatural, que nenhum caráter meramente humanitário nem de longe tem. E exatamente a industrialização do Natal, a meu ver, é feita para acabar com essa atmosfera e colocar uma atmosfera de fundo diabólico, que é exatamente feita para liquidar os prejuízos que o demônio tem nesse tempo.

Comemoração do Natal numa atmosfera comercializada

Vejamos como essas influências sobre as quais eu falava são verdadeiras. Nas vésperas do nascimento de Nosso Senhor, os homens bons, os pecadores que não eram endurecidos, mas arrependidos, estavam alegres, e os maus, profundamente perturbados.

Pouco antes da Revolução Francesa, do protestantismo, notava-se completamente o contrário. Os homens bons profundamente angustiados, às vezes sem saber por quê; os ruins alegres, cheios de esperança. São as tais influências que percorrem o mundo e dão o sentido profundo da História.

Que devemos pedir à vista disso?

Em primeiro lugar que Nossa Senhora atue sobre a nossa fraqueza, dando-nos uma orientação exata quanto a essas influências para o lado bom e vantagem da nossa alma. E em segundo lugar que Ela nos dê um meio de resistência neste Natal à atmosfera comercializada e péssima que temos diante de nós. Por toda parte se veem essas cestas enormes com pseudo presentes, e nos postes das ruas, manifestações natalinas horrorosas, para preparar o Natal de mentira.

Que Maria Santíssima nos conceda também o espírito verdadeiro do Santo Natal, quer dizer, algo dessa alegria pela comemoração do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Atos de reparação na noite de Natal

Entretanto, eu gostaria de acrescentar algo que deve marcar as nossas festas de Natal.

Não podemos celebrar este Natal como se este fosse um ano qualquer. Imaginemos uma casa na qual a mãe de família está gravemente doente e sofrendo dores atrozes. Compreende-se que se faça uma árvore de Natal e, sobretudo, que haja um movimento de piedade a propósito dessa festa, e alguma coisa da alegria natalina.

Mas isto tudo deve ser dominado pela lembrança da mãe que está doente. Ou seja, há uma espécie de luz de tristeza, arroxeada.

E é bem isto que precisa existir também no nosso Natal, por razões que todos estão fartos de saber.

Devemos carregar a dor de nossa Mãe durante este Natal, porque é como filhos d’Ela que nós o celebramos.

Eu gostaria de insistir também num ponto: no momento do Santo Natal, precisamos fazer atos de reparação. Nossa Senhora, com certeza, desde o primeiro instante reparava junto ao Menino Jesus todos os sofrimentos que Ele viria padecer.

Portanto, o dia de Natal teve tristezas. E na situação atual, não ter essa tristeza é completamente inconcebível.

Então, o cálice está sendo bebido até a última gota e nós, em vez de pensarmos nos cálices com fel, cogitamos nas taças com “champagne”? Fazendo assim, como se pode ter alma reta? É evidentemente impossível.

De maneira que eu insisto: na própria noite de Natal, é preciso saber ter um espírito de reparação nos atos de piedade, que nesta ocasião vamos oferecer.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 20/12/1965)
Revista Dr Plinio

 

1) Freira Agostiniana, mística, beatificada em 3 de outubro de 2004.

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