“Celestialização” da vida temporal

A verdadeira arte deve buscar o maravilhoso de modo crescente. Sua missão consiste em retraçar, tanto quanto possível, um ambiente em torno do homem de maneira a ele ter o caminho indicado e ser levado para o Céu. A Revolução faz exatamente o contrário.

 

Uma nova perspectiva sob a qual se poderia considerar o tema “graça” seria a seguinte:

Métodos para representar o maravilhoso

Imaginemos que houvesse um lugar onde os Anjos baixassem visivelmente e estivessem algum tempo ali louvando a Deus, e depois fossem embora. Por exemplo, o lugar onde apareceu o Anjo na Cova da Iria. Ali tem bênção, é indiscutível. Ora, a alma humana foi feita para sentir coisas desse tipo por toda a eternidade; e o nosso estado normal de batizados é nos encontrarmos em presença de realidades que tenham esse quilate. É o nosso ponto de repouso final.

Isso significa que, tanto quanto possível, a missão da arte consiste em retraçar esse ambiente em torno do homem, de maneira a ele ter o caminho indicado e ser levado para o Céu. Enquanto o papel da Revolução consiste, evidentemente, no contrário.

Assim, não há maravilhoso que baste para uma arte verdadeira. Entretanto, é preciso fazer distinção de duas coisas. Uma é o maravilhoso enquanto representado através de coisas materiais, por exemplo um quadro qualquer de uma cena medieval de cruzados partindo para guerra. E outra seria uma pintura de Anjos, feita por Fra Angelico, que se serve das coisas materiais para representar o puro espírito em estado de graça. E onde o tema quase direto não é a matéria, mas a graça. Aqueles quadros de Fra Angelico representam indiscutivelmente uma tentativa de servir-se da tinta para representar o maravilhoso. E representam mesmo. É diferente de representá-lo através de uma catedral. Porém, ambos os métodos devem ser utilizados.

A dimensão celeste da Cristandade

Como seria o homem formado completamente num ambiente assim? Como seriam as relações dele? O conhecimento disso nos daria ideia da sociedade constituída por ele.

Isso nenhum tratado de Direito Natural diz, porque de fato escapa a essa matéria. Entretanto, deveria haver obras que abordassem este assunto às quais um tratado de Direito Natural fizesse referência. Porque a mera ordem natural, no que diz respeito ao homem, não existe. Portanto, ou a Cristandade tem uma dimensão celeste, e consequentemente muito superior ao que se imagina, ou ela não atingiu seu fim. Então, a meta é a “celestialização” da vida temporal, sem deixar de ser temporal.

Pode-se dizer que, até certo ponto, monarquias antigas realizaram coisas desse gênero de algum modo, muito palidamente, mas não ousavam quase chegar até lá. Digamos, por exemplo, o quarto de dormir de Maria Antonieta. Aqueles tecidos maravilhosos eram feitos para dar à sociedade terrena o aspecto mais bonito possível, mas não tinham a intenção de “celestializá-la”. Se houvesse esta intenção, não sei até onde iria!

A meu ver, ao espetáculo do horror do demônio que se prepara para vir e se mostrar, nós teríamos que saber opor o espetáculo admirável de Nossa Senhora que prepara o seu Reino!

Uma maravilha que ofuscaria Veneza

É indiscutível que Deus fez certas obras, a rogos de Maria Santíssima, que “celestializam” um tanto mais do que os homens imaginaram. Veneza é uma delas.

Poderia ter havido ali um Fra Angelico que jogasse com os reflexos de água sobre um monumento, uma escultura, pintura ou um mosaico colocados diretamente à beira d’água. Vê-se que a ideia não passou pela cabeça dos artistas. Também os que construíram aqueles palácios estavam pensando em tudo, menos nisso.

Por exemplo, um edifício que poderia ter ficado à beira d’água é a Catedral de Orvieto. Aquilo imaginado em Veneza, e colocado numa ilha, ficaria maravilhoso! Sobretudo se houvesse em alguns pontos uns braços de ferro bonitos, trabalhados, para pôr archotes durante a noite. Podia ficar muito bonito. Vou dizer mais: tornar-se-ia tão bonito que quase ofuscaria Veneza! O resto ficaria pouca coisa em função disso.

Há certos gêneros de maravilhas que estão para além da Terra. São paradisíacos.

A arquitetura francesa, por mais bonita que seja, não fica bem no meio das águas como em Veneza. Lembro-me da lamentação da Condessa Anna de Noailles(1): “C’est trop de beauté! – É beleza demais.”

Está na missão da ordem material criada ser um espelho da ordem espiritual. Entende-se por aí aquela expressão de São Paulo, que afirma: “De fato, as perfeições invisíveis de Deus são percebidas pelo intelecto através de suas obras, desde a criação do mundo” (cf. Rm 1, 20). Portanto, de tudo o que nossa alma tem desejo de ver, enquanto espiritual, se souber ler as coisas da Terra, ela tira as devidas conclusões. Eis a razão pela qual estou analisando continuamente todas as coisas.  v

(Extraído de conferência de 13/7/1990)

 

1) Poetisa e romancista francesa (*1876 – †1933).

 

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