A borboleta, o pavão e o cisne

Quantas maravilhas Deus criou no universo! Ao observá-las, o homem deve procurar entender não apenas suas razões funcionais, mas seus sentidos mais elevados, como fazia Dr. Plinio. Pessoa altamente contemplativa, tudo quanto caia sob seus olhos ele relacionava com o Criador.

 
Quando era criança, eu corria atrás de borboletas, encantadíssimo! Há borboletas com um tipo de voo do qual gosto muito: flutuam, brincam com o ar. Sem saber, servem de deleite para outros; e embora não tenham um pingo de faceirice, se fossem faceiras, mexeriam as asas e voariam daquele jeito, para serem mais admiradas. É uma coisa bonita de ver.

O azul luminoso

Em minha opinião, uma das mais belas cores é o azul luminoso, esplendoroso, mas discreto das asas das borboletas. Dir-se-ia que a luz está dentro dessa cor. Ao se movimentarem as asas, o azul desaparece e surge o prateado. É propriamente um furta-cor, ou seja, um roubo de cor, uma cor rouba a outra. A meu ver, isso produz um efeito ocular muito bonito, fantástico! Quase se diria que um inseto como esse não poderia existir.
Isso me faz lembrar uma frase de Nosso Senhor, a propósito dos lírios do campo. Ele ensinou que não devemos nos preocupar com as coisas desta Terra além do limite necessário, porque a Providência vela sobre nós. E, então, disse o Redentor: “Olhai como crescem os lírios do campo! Não trabalham, nem fiam. No entanto, Eu vos digo, nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um só deles”(1).
Sem dúvida, se víssemos uma pessoa vestida com uma roupa feita de pétalas de lírio, ficaríamos maravilhados! Não existe um tecido como esse, assim como não há um tecido como as asas de uma borboleta.

Um manto real esplêndido

Outras duas belezas da Criação são o cisne e o pavão.
Poder-se-ia dizer que a cauda do pavão é um manto real absolutamente esplêndido e muito bem cortado. Há no pavão uma evidente nobreza, e uma beleza admirável das plumas da cauda, no furta-cor azul e verde das penas, no jeito, na anatomia — por assim dizer — do pescoço dele. Nessa ave tudo é grande, exceto a cabeça, mas esta constitui o centro pequeno e vivo que dá movimentação a todo o resto, enquanto cabe a um ser irracional.
O modo de um pavão se mover é como o de uma rainha. Ele anda com um estilo nobre, calmo, não se assusta com nada; quando corre, fá-lo com uma certa dignidade; e quando para, não fica ofegante, mas com compostura. Cessado o perigo, ele volta à contemplação, não tanto de si mesmo, mas do “pulchrum” formado por ele e pelo que o rodeia.
Quando o pavão abre a roda, prestem atenção no pescoço dele e nos ares que toma; ares de superioridade, como quem diz: “Eu sou dono desta roda magnífica atrás de mim; mas não é apenas uma exposição de penas que levo comigo; sou superior; olhem a minha marcha e o meu pescoço todo feito de ‘joias’! Olhem a posição de minha cabeça! Considerem o meu olhar, o meu bico… Eu sou o pavão!”

O rei da água

Outra expressão do belo é o cisne, entretanto tão menos ornado do que o pavão. Enquanto o pavão tem aquela sua “joalheria”, sendo uma das aves mais belas criadas por Deus, o cisne, não. Ele é de uma cor só: branco ou, então, simplesmente preto. Mas observem o seu jeito de deslizar sobre as águas. Quando quer mover-se um pouco, o cisne faz um leve movimento com as patas por debaixo da água e desliza suavemente. Tem-se a impressão de que ele se contempla nas águas, e que estas ficam contentes de refleti-lo.
Ao confrontar o cisne com o pavão, nota-se serem ambos insignes pela beleza: um pela pulcritude simples e elegante, e o outro pela beleza ornada e majestosa. São duas formas de beleza, levadas pelo Criador a uma perfeição que nos deixa pasmos!
O cisne tem tanta placidez, tal domínio da natureza líquida, onde se move com tanta facilidade, que parece ser o rei da água. E a massa líquida parece feita para adornar e manifestar a beleza do cisne.
Quanta diversidade no cisne! Acima, a cabeça; depois, o pescoço elegantíssimo e o corpo um pouco volumoso. Se considerássemos só a cabeça e o pescoço, seria uma víbora elegante; se olhássemos somente para o corpo, seria um pato elegante. Mas como o cisne é superior ao pato e à víbora! Que harmonia maravilhosa no encontro entre o pescoço tão delicado e o corpo grosso — para o qual, entretanto, não falta elegância… — e ressaltado pelo branco magnífico, feito para brilhar à luz do Sol!

Deixar o prático-prático e contemplar

Uma das razões de ser dessas maravilhas é tirar o homem do prático-prático, fazendo-o compreender que as coisas não existem apenas por um motivo funcional, mas também por um sentido mais elevado.
Quando se tem o frescor da alma católica, sente-se gosto em permanecer vários minutos olhando para o cisne que singra as águas. Contemplando sem nenhum pensamento definido; mas quanta riqueza existe em muitos pensamentos indefinidos!
Vem-nos a impressão de que há algo de mais delicado, mais gracioso, mais digno, mais nobre do que nossa natureza humana considerada só em sua decadência. O que Nosso Senhor disse sobre Salomão e os lírios do campo, poderíamos aplicar ao cisne: Nenhum rei jamais teve glória tão bela como a do cisne!
Então, para além do homem existe algo mais alto: Deus, Nosso Senhor, ao Qual nos convidam os esplêndidos movimentos de alma que quadros como esses sugerem.
 
Plinio Corrêa de Oliveira [Extraído de diversas conferências(2)]
 
1) Mt 6, 28-29.
2) 14/1/1974, 10/6/1985, 9/9/1988, 16/9/1989 e 6/1/1992.