A beleza ungida pela graça

Nas belas obras de arte produzidas na Idade Média, observa Dr. Plinio, deve-se considerar, acima da excelência do talento medieval, a riqueza da graça de Deus que inspirou os autores dessas maravilhas. A mesma graça que, para o espírito de um observador atento, parece ecoar ainda hoje nos ambientes outrora iluminados por sua presença.

 

Quando fazemos uma viagem durante a qual nosso espírito recolhe uma série de impressões, é normal que as reflexões e os pensamentos a propósito de tudo que se viu não aflorem imediatamente. Deixa-se repousar as impressões e as análises e, mais tarde, as conclusões se evolam de tempos em tempos, mais ou menos como as flores que demoram a exalar todo o seu perfume. Assim se dá com as recordações de viagem: há várias exalações consecutivas de diversos significados, de bons aromas que se apresentam e se formulam à medida que o tempo passa.

Daí vem o fato de que, somente alguns meses depois de minha última visita à Europa, eu tenha conseguido explicitar o pensamento que procurarei explanar aqui, oriundo da comparação entre esta e as anteriores viagens que fiz ao Velho Continente.

A ação da graça favorece uma obra católica

Imaginemos, por exemplo, um escritor como São Bernardo de Claraval. Ele redige seus sermões sobre Nossa Senhora e, por se tratar de uma obra feita com espírito católico e com a intenção de servir a Santa Igreja e a Civilização Cristã, supõe-se que a graça incide sobre esse ato, favorecendo-o de modo especial. Por isso, quando lemos um sermão de São Bernardo, temos duas impressões.

Uma, natural e humana: o autor é um escritor exímio, de grandes vôos literários.

Mas, como tudo foi escrito com amor de Deus e movido pela intenção de despertar pensamentos sobrenaturais, inspirados pela Fé e tendentes à glória divina, têm-se a segunda impressão: a graça presidindo àquela obra, pois ninguém, nem São Bernardo, é capaz de pensar algo com base na Doutrina Católica, nem de querer um benefício para a Igreja ou para a glória de Deus, sem ser inspirado e auxiliado pela graça. Sem o socorro desta, o homem é incapaz de proceder a essas operações intelectuais e volitivas.

Há, portanto, uma operação de origem sobrenatural que se soma à operação natural da inteligência, vontade e sensibilidade, pela qual ao lermos aquele sermão, percebemos belezas novas, de caráter absolutamente superior e extraordinário.

Valores sobrenaturais simbolizados nos monumentos europeus

Ora, isto que se pode dizer de um texto, aplica-se também a monumentos, edifícios, catedrais, imagens, obras de arte. Por exemplo, pode-se dizê-lo das estalas superiormente bem esculpidas de um convento, de um vitral, de peças elaboradas com espírito sobrenatural, para o serviço de Deus, e também para uma finalidade natural. Quem vê aquilo é visitado por uma graça que lhe faz compreender as analogias que o objeto tem com valores sobrenaturais. Donde o grande apreço que o homem nutre por aquilo que ele contempla.

Por exemplo, um castelo com suas torres, ameias e barbacãs, pode nos transmitir uma impressão sobrenatural, proporcionada pela graça, resultante do fato de que sua arquitetura simboliza a virtude da fortaleza enquanto praticada por amor a Deus. Nisto se encerra a beleza superior do castelo, como de outros monumentos europeus, muitos deles construídos na plena era do amor de Deus, isto é, no apogeu da Idade Média, ou em épocas posteriores ou mesmo anteriores, quando o estilo românico já continha algo do sorriso cheio de afabilidade, de majestade e de uma discreta melancolia do gótico.

Mais ainda: a graça pode, inclusive, conceder ao observador um especial discernimento do espírito com que determinado monumento foi construído. Por exemplo, diante da praça do Paço Municipal de Siena, pode-se compreender o espírito dos senenses daquele tempo, e como a graça atuava em suas almas para engendrarem aquelas belezas.

O passado revive em locais visitados pela graça

Essas considerações me levam a crer que os lugares onde se passaram os grandes acontecimentos, os grandes atos de coragem, de virtude, de renúncia, de amplitude de horizonte sobrenatural, da história da Cristandade, tornam-se locais particularmente dignos de reverência. Tem-se a impressão de que as cenas neles ocorridas, como que ainda estão se passando ali. Portanto, aquele passado todo revive, e para quem visita aquele lugar, sente um prolongamento, uma continuidade misteriosa que o emociona.

Naturalmente, digo que é uma impressão, pois não corresponde à realidade do momento. Trata-se de outra realidade: onde fatos dessa magnitude se deram, foram acompanhados de graças também insignes. E assim como a graça visita a alma de quem lê, com oitocentos anos de diferença, um livro de São Bernardo de Claraval, ela visita a alma de quem, com cinco séculos de diferença, contempla um lugar de grande importância histórica.

Tem-se, pois, uma degustação da graça atinente àquela atmosfera do local que ela ungiu primeiro, e nos permite, hoje, como que entrar numa misteriosa intimidade com os fatos ali passados. Essa impressão me parece ser altamente benfazeja para o espírito, e enriquece o sentir, o saborear do homem que contempla esse ou aquele monumento.

A Catedral de São Marcos

Tomemos, por exemplo, a Catedral de São Marcos, em Veneza. Diante dela, discernimos o desejo de maravilhoso, de grandioso, inspirado pelo espírito de Fé com que, em louvor de São Marcos, ela foi construída. É uma das mil cintilações deslumbrantes do espírito católico que se manifesta ali, de maneira que, ao contemplar a catedral, alguém poderia exclamar: “Igreja Católica é isto. Ó Igreja Católica!”

Agora, dentro dessa catedral se passaram fatos históricos da maior importância, que determinaram rotações na história das nações ribeirinhas do Mar Adriático, na história de Veneza, da Itália e na história da Cristandade. Então, pelo auxílio da graça, ao analisarmos a Catedral de São Marcos, não temos apenas uma percepção do espírito de Fé que a edificou, mas temos também uma idéia dos mil episódios que ali ocorreram.

A última visita do Patriarca Sarto à sua Catedral

Um desses fatos, por exemplo, deu-se no começo deste século [XX].

O futuro Papa São Pio X era Cardeal e Patriarca de Veneza, quando faleceu o Pontífice Leão XIII e, como de costume, foi convocado o Conclave para eleger seu sucessor. Conta-se que o Patriarca Sarto comprou passagem de trem, de ida e volta para Roma, pois não considerava a hipótese de que pudesse ser o escolhido.

Seja como for, podemos imaginar a última visita do Patriarca à Catedral de São Marcos, pouco antes de tomar a gôndola que o levaria à estação ferroviária, de onde partiria para o conclave. Com sua figura esguia, revestido de trajes vermelhos de Cardeal, o cabelo já branco, e ele alvíssimo — uma pincelada branca no meio das púrpuras que o rodeavam —, seguido e acompanhado de seus secretários, de monsenhores, de prelados, atravessando o corredor e indo se ajoelhar no presbitério, para rezar.

Essa seria a cena de Veneza despedindo-se do mais recente dos Papas canonizados. Quem passeia sob as colunas do átrio de São Marcos, ou transpõe suas portas, pensando nesse acontecimento histórico, não tem a impressão de que São Pio X está ali, rezando junto ao altar? Não revive um pouco daquele episódio?

De fato ele não está. O que ainda se acha presente, como acima dissemos, é um eco daquela graça que iluminou e ungiu com sua ação o acontecimento histórico, e que torna especialmente sagrado, especialmente belo e digno de reverência, o lugar onde ele se passou. v

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência em 11/1/89)