São Nuno de Santa Maria

São Nuno de Santa Maria, como dizia seu epitáfio, foi “o famoso Nuno, o Condestável, fundador da Casa de Bragança, excelente general, beato monge, que durante a sua vida na terra tão ardentemente desejou o Reino dos Céus depois da morte, e mereceu aeterna companhia dos Santos”. Dotado de grande gênio militar demonstrado em várias ocasiões em que se mostrou um digno defensor de Portugal, “suas honras terrenas foram incontáveis, mas voltou-lhes as costas. Foi um grande Príncipe, mas fez-se humilde monge”, como bem descreveu o autor da inscrição gravada em seu túmulo, lamentavelmente destruído por ocasião do grande terremoto que abalou Lisboa em 1755.

São Nuno Alvares Pereira nasceu em 24 de junho de 1360, tendo falecido em 1431. Recebeu a melhor educação que na época se podia dar, e desde tenra idade manifestou capacidade de trabalho, grande inteligência e excelente raciocínio, sendo exemplarmente aplicado aos estudos, no que se distinguia entre seus irmãos pelo aproveitamento e saber. Detinha muita habilidade física demonstrada nos exercícios de força e destreza.

Recebeu ele sólida instrução religiosa, a qual não o revestiu apenas de conhecimentos, mas também da vida de piedade que lhe era o alimento espiritual para as atividades do dia-a-dia. Cultivou a virtude da castidade, associada a uma profunda devoção à Virgem Maria, Mãe de Deus.

Aos treze anos seu pai fez com que o jovem Nuno iniciasse nova vida, destinando-o a ser um cavaleiro: partiu então para a corte, tornando-se pagem de Dona Leonor, a Rainha.

Nuno amava a leitura, imergindo nos livros sobre a cavalaria. A leitura dos feitos militares o preparou para os encargos que lhe seriam confiados, e que ocupariam importante lugar na história da nação lusitana.

Três anos e meio passou Nuno na corte. O exemplo dos cavaleiros  o inclinou a preferir a virgindade celibatária ao matrimônio, a fim de também praticar feitos heróicos, mas as intenções de seu pai o fizeram tomar um diferente rumo: uma permissão papal para que ele desposasse sua prima Leonor de Alvim, e também a concordância desta, precederam o comunicado ao jovem Nuno, então com dezesseis anos. Atônito com a informação que seu pai lhe transmitia somente ao fim de uma seguidilha de providências, Nuno pediu tempo para pensar, mas o genitor insistiu na idéia através de Iria, sua mãe, a qual teve como resposta a informação de que ele decidira permanecer solteiro. Não satisfeito, o pai de Nuno provocou nova investida através de um primo e um genro, ambos amigos íntimos de seu filho, sendo finalmente obtido o consentimento para as bodas.

Com a esposa, Nuno passou a ter uma vida pacata, administrando suas propriedades. Participava diariamente de duas Missas (três, nos dias santificados), e nas viagens fazia-se acompanhar de um sacerdote para não faltar ao Santo Sacrifício. Após o primeiro ano de vida matrimonial nasceu a primeira filha do casal, Beatriz, e posteriormente outros dois filhos (que morreram com pequena idade).

Nuno, o combatente

De estatura média e bem proporcionado, de aspecto aparentemente franzino, Nuno exibia uma constituição forte e robusta, própria a suportar a vida guerreira, só superada pela grandeza de alma e fortaleza cristã que detinha.

As circunstâncias de então não permitiram que se estendesse por muito tempo a vida tranquila do feliz casal: inicia-se uma guerra entre dois reinos – Castela e Portugal – e Nuno tomou as armas a pedido do rei, iniciando assim um novo capítulo na história de sua vida. Chegado pouco antes à maioridade, Nuno ardia em desejos de servir à pátria, e assim passou a ostentar audácia e valor como guerreiro, sendo seus feitos admirados pela nobreza e pelo povo.

Em 1383 o rei português D. Fernando morrera sem deixar descendência masculina para herdar a coroa, e sua filha única – Da. Beatriz – fora casada naquele ano com o rei castelhano Juan. A insatisfação em Portugal para com a rainha Da. Leonor, que regia o país em nome da filha, era grande, querendo-se que o Mestre de Avis (filho natural do falecido rei D. Pedro I) ficasse à frente do reino, evitando-se assim que o país fosse anexado a Castela. A rainha regente preferia a anexação, por motivos familiares: sua filha Da. Beatriz havia se casado com o rei castelhano. Essa situação causou o chamado interregno, ou crise de 1383-1385, sendo um período de guerra civil e anarquia na história lusitana.

As habilidades guerreiras de Nuno foram por todos admiradas na Batalha dos Atoleiros (6 de abril de 1384, véspera da Quinta-Feira Santa), em que novas técnicas para defender as forças de infantaria frente a um número superior de inimigos mostraram-se eficazes: houve muitas baixas entre os castelhanos, bem mais numerosos, não havendo uma única morte entre os combatentes portugueses, motivo de especial reconhecimento pela proteção divina (o próprio comandante havia estimulado a todos os membros de suas tropas a que confiassem em Deus e em Nossa Senhora). Porém na Batalha de Aljubarrota (14 de agosto de 1385) é que foi selada a derrota definitiva dos castelhanos, imposta pelo rei português D. João (reconhecido como ocupante do trono pouco antes, em 6 de abril, primeiro aniversário da Batalha dos Atoleiros) e seu fiel Condestável, Nuno, tendo sido este último quem definiu inteligentemente o local onde o combate seria travado, pois pôde estudar a área com antecipação. Sendo véspera da Assunção da Virgem, o costume impunha que fosse feito jejum naquela data que antecedia a festividade mariana, e nesse estado o combate foi iniciado, e vencido (momentos antes de iniciada a batalha os soldados participaram da Santa Missa, podendo comungar todos os que o desejaram, tendo havido disponibilidade para confissões no dia anterior). Apesar das buscas feitas pelos portugueses aos castelhanos vencidos, a fim de exterminá-los, o Condestável Nuno deu ordem para que fosse suspensa a perseguição, dando trégua aos combatentes fugitivos para que se evadissem, salvando assim suas vidas. E assim D. João I foi consolidado como rei de Portugal, iniciando a dinastia de Avis: estava satisfeita a ambição de Nuno, que o queria como rei, mas nem por isso depôs as armas, pois de outras batalhas teria ainda de participar (muitas partes do território português ainda se encontravam em poder do rei de Castela, sendo ansiada a sua recuperação).

Em certa ocasião três batalhões retomavam cidades que haviam caído sob ocupação inimiga. No local chamado São Félix os habitantes recusaram render-se ao comandante Vasques da Cunha, dizendo que só se renderiam ao batalhão de Nuno. Vasques irritou-se profundamente, estando a ponto de invadir a localidade, mas seus companheiros fizeram-lhe ver que assim seria vertido sangue desnecessariamente, obrigando o comandante a conter sua raiva. E depois os habitantes renderam-se pacificamente às tropas de Nuno.

Condestável de Portugal

O rei D. Fernando havia criado o cargo de Condestável do Reino, confiado em 1382 ao Conde de Arraiolos. Nuno foi o segundo a receber tal título (que lhe foi conferido em 1384, detendo-o até à sua morte em 1431), que caracterizava quem o detinha como a segunda pessoa na hierarquia militar portuguesa, depois do monarca. A ele estava atrelada a responsabilidade de comandar campanhas militares na ausência do rei, e a manutenção da disciplina no exército.

Além de promover a castidade, Nuno vigiava de perto os seus soldados, não lhes permitindo jogos de azar e outros vícios.

Profunda religiosidade

A religiosidade sempre esteve presente na vida de Nuno. Ao elaborar sua bandeira – estandarte militar – tomou ele o cuidado de nela inserir componentes religiosos, o que lhe permitia (e a seus comandados) ajoelhar-se diante dela para implorar a ajuda da corte celeste em cada empreitada. Era uma bandeira branca, dividida em quadrantes pela cruz de São Jorge, apresentando uma cena da crucifixão (com a Virgem e São João aos pés de Cristo agonizante), uma cena de Nossa Senhora com o Menino Jesus nos braços, e os guerreiros São Jorge e São Tiago ajoelhados um frente ao outro (e a cruz branca sobre fundo vermelho, emblema dos Pereiras, atrás de cada um destes últimos).

Vencida a batalha dos Atoleiros, Nuno dirigiu-se no dia seguinte (Quinta-Feira Santa de 1384) à capela de Nossa Senhora da Assunção, nas proximidades, a fim de render graças pela vitória obtida, mas entristeceu-se profundamente até às lágrimas ao perceber que o templo havia sido profanado pelos inimigos, que em passagem por ali a utilizaram como cocheira para seus animais. Ele próprio pôs mãos à obra, iniciando a limpeza a fim de devolver a capela ao culto.

Mesmo em tempos de guerra Nuno assistia diariamente a Santa Missa, duas vezes se possível, e até mesmo três em dias especiais, e para isso sempre se fazia acompanhar de ao menos um sacerdote nas viagens e deslocamentos. Tinha momentos definidos para as orações, e, quando não os podia respeitar face aos deveres militares, resgatava-os depois, usando os momentos que deveria destinar ao repouso. Desde a infância habituara-se a rezar as matinas, chegando a receber o apelido de “Nuno Madruga”. Diariamente fazia a confissão sacramental, com confissão geral quatro vezes cada ano (vigílias do Natal, Páscoa, Pentecostes e Assunção da Virgem).

Quando o Santíssimo Sacramento era exposto, não era fácil a Nuno ausentar-se, e chegava mesmo a deixar de lado as refeições. Vultosas doações para aquisição de paramentos e objetos litúrgicos eram por ele feitas, inclusive cera e azeite para velas e lamparinas destinadas ao culto. Custeou Nuno a construção de numerosas igrejas (inclusive a que foi dedicada a Santa Maria da Vitória, em Batalha), e também o Carmelo de Lisboa, onde findou seus dias.

Em todos os combates portava Nuno um relicário com um fragmento do Santo Lenho. Tinha também relicários nos quais havia relíquias de numerosos santos a quem tinha especial devoção: São Tomás de Aquino, São Cosme, São Damião, São Silvestre Papa, Santo Ambrósio, São Gregório Magno, Santo Agostinho, São Bento, São Bernardo, São Domingos, São Francisco, alguns apóstolos e evangelistas, e vários mártires dos primeiros tempos da Igreja, entre outros. Também mantinha em relicários fragmentos de lugares e objetos veneráveis: Santo Sepulcro, Presépio, Casa de Loreto, e também o Agnus Dei (cera do círio pascal bento pelo Papa).

Entrada no mosteiro da Ordem do Carmo

Nuno e Leonor tiveram uma vida matrimonial exemplar, apesar dos afastamentos do Condestável para o serviço da pátria. Em 1387 Nuno mais uma vez deslocou-se em viagem para atender um chamado do monarca, como procurador dos fidalgos do reino. Tendo-lhe chegado a notícia de que sua esposa adoecera gravemente, viajou para o Porto, cidade onde ela se achava, mas não a tempo de encontrá-la com vida. Ficara ele viúvo com apenas 27 anos, tendo como familiares próximos sua filha e sua mãe. Do casamento de sua filha Beatriz com o Duque de Bragança originou-se a Casa de Bragança, que reinaria em Portugal a partir de 1640.

Alcançada a paz no reino, o Condestável, tendo distribuído seus bens (detinha uma das maiores fortunas da Península Ibérica) e perdoado todas as dívidas, ficou apenas com a roupa que vestia, e aos 62 anos ingressou na ordem carmelitana, onde a vida contemplativa era a sua única ambição. Sua chegada ao convento teve a participação de toda a comunidade ali residente, da qual recebeu as boas vindas, dirigindo-se o novo irmão à igreja onde – prostrado diante do altar e com olhos lacrimejantes – agradeceu a Deus por ali, finalmente, estar. Desfazendo-se até mesmo do nome de família, passou a chamar-se Nuno de Santa Maria. Na cela de seu uso, cujo mobiliário era composto por um leito formado por duas tábuas, havia apenas dois cobertores grosseiros (um para cobrir as tábuas, e outro para cobrir o religioso), um Crucifixo, e os instrumentos pessoais de penitência. Durante sua vida conventual quase partiu para outra empreitada militar, mas o inimigo desistira quando soube que o Condestável o enfrentaria.

Ao tornar-se religioso carmelita, São Nuno redobrou as suas penitências corporais, fazendo uso dos instrumentos que para isso eram habituais (cilícios e disciplinas). Fazia jejum três vezes por semana durante todo o ano (diariamente por ocasião do Advento), jejuando também a pão e água aos sábados para honrar a Mãe de Deus. Percebendo o enfraquecimento corporal, seus superiores lhe determinaram sob obediência a mitigação dos jejuns, ordem cumprida no seu limite mas não a ponto de lhe lisonjear o paladar.

Morre o Santo Condestável

Aproximando-se o momento de partir para a eternidade, Nuno pediu os últimos sacramentos, tendo feito uma confissão geral que abrangeu toda a sua vida. Recebida uma vela (que portou na mão esquerda) e um Crucifixo (na mão direita), pediu que lhe fosse lida a Paixão, segundo o evangelho de São João: às palavras “eis o teu filho”, sua alma partiu deste mundo. Contava 71 anos e 11 meses, sendo seu corpo exposto na igreja do mosteiro, onde foi visitado pela quase totalidade dos habitantes de Lisboa que ali compareciam para dar adeus a seu valoroso compatriota. Beatificado em 1918 por Bento XV, o Condestável foi canonizado por Bento XVI em 26 de abril de 2009.

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