A Quarta-Feira de Cinzas em seu nascedouro

Dentre as inúmeras luzes irradiadas pela Santa Igreja sobre a Civilização Cristã, encontra-se uma de inigualável valor: a Liturgia católica! Esta, quando vista em função do contexto no qual surgiu, apresenta brilhos e encantos próprios.

Analisando a gênese da Quarta-Feira de Cinzas, Dr. Plinio  aponta-nos o verdadeiro estado de espírito com que devemos  ingressar na Quaresma.

 

Para bem se compreender a intenção da Igreja ao instituir o cerimonial da Quarta‑Feira de Cinzas, é necessário considerar suas origens, bem como sua repercussão na época em que foi estabelecido.

Portanto, é necessário voltarmos nossa atenção a um longínquo passado, visto que essa prática litúrgica — à semelhança de como quase todas as outras — se constituiu, provavelmente, de modo definitivo na Idade Média. Algo ainda se acrescentou nos primeiros séculos dos tempos modernos, e depois disso quase nada foi acrescido.

A Igreja, centro da vida social

Como eram constituídas as cidades no tempo em que essa prática litúrgica surgiu?

Por aquilo que delas restou, ou pelo que ficou retratado nas iluminuras, vê-se que as cidades medievais eram pequeninas, com ruas estreitas a fim de caber dentro de muralhas, as quais eram necessariamente circunscritas, pois que serviam para defender os habitantes de ataques inimigos.

Por isso, as casas eram muito próximas umas das outras; o andar superior se projetava mais para a frente de modo a ficar sobre a rua, a ponto de, estando à janela de uma dessas casas, ao estender o braço, poder-se tocar na casa que estava adiante.

No centro desse emaranhado orgânico de edifícios erguia-se uma torre: o campanário da igreja. Mais próximo à igreja havia, às vezes, uma ou mais abadias ou conventos, em torno dos quais se agrupava a população. Deste modo, tudo quanto se passava na igreja constituía o centro da vida social.

Os pecadores ante a sociedade

Ora, o que se passava na igreja, na quarta-feira que marcava o início da Quaresma?

As pessoas que haviam se tornado claramente pecadores — tendo, por exemplo, matado alguém sem disso ter se arrependido e confessado, portanto, vivendo afastadas dos sacramentos; ou então blasfemado publicamente contra Deus e contra a Igreja, e apesar de repreendidas persistiram em sua obstinação; e até mesmo aquelas que notoriamente se tinham afastado da Igreja, deixando de comparecer à Missa e frequentar os sacramentos — eram chamadas pecadores públicos.

Como eram vistos pela sociedade estes pecadores?

O conceito do homem medieval a respeito deste tipo de gente era o seguinte: “Eles são pecadores, miseráveis e, por isso, altamente censuráveis, deles devemos viver afastados, pois o homem reto não convive com o pecador, e quando tem que tratar com um deles, o faz com distância e frieza, pois, até que se arrependa e faça penitência por seu pecado, sendo inimigo de Deus ele é também inimigo do gênero humano!”

Apesar disso, a centralidade da Igreja na sociedade medieval era tal que até mesmo esses pecadores compareciam à igreja por ocasião da Quarta-Feira de Cinzas, mesmo porque a maior parte deles sabia que estava no mau caminho e pesava-lhes viver naquele estado, apesar de não querer abandoná-lo.

Além desses pecadores, nesta ocasião havia outros que se denunciavam como tais. Às vezes, eram homens tidos como muito virtuosos, mas que nessas cerimônias apareciam entre os pecadores públicos, acusando‑se de algum pecado. E, por terem sido objeto de uma honraria e consideração à qual não tinham direito, estando arrependidos queriam receber o desprezo que mereciam.

Ademais, a estes se somavam muitos que, por terem cometido pecados que não eram públicos, mas se julgavam pecadores, juntavam-se àqueles para fazer penitência e assim reparar suas faltas.

Aproximai-vos de onde o perdão vos vem

Assim, quando os sinos começavam a tocar, as pessoas iam saindo de suas casas, e no grupo dos inocentes ou dos pecadores se dirigiam para a igreja. Imaginemos o estado de espírito desses homens pecadores, andando pela rua, ao lado da população inocente, vendo de longe a fachada imponente da igreja, adornada de santos e de anjos, tendo no centro uma imagem do Crucificado, ou de Nosso Senhor Jesus Cristo abençoando, ou então a imagem da Virgem das Virgens, concebida sem pecado original.

Ouvindo ainda o bimbalhar dos sinos, chegam diante da fachada da igreja que se ergue imponente, aparentando severidade, entretanto tão acolhedora que parece dizer: “Vinde, filhos! Vós pecastes, mas aproximai-vos de onde o perdão vos vem, confessai‑vos e arrependei‑vos”.

Entravam todos e, transcorrida a cerimônia, os pecadores se retiravam para um determinado lugar onde iriam fazer penitência.

Contudo, isto só tinha verdadeira autenticidade porque o homem na Idade Média possuía uma profunda noção da gravidade do pecado.

Alguém que não se toma a sério a si próprio

Como manter firme esta noção que inúmeras circunstâncias procuram desbotar em nós?

Para compreendermos isso, vou levantar uma pergunta um tanto estranha. O que meus ouvintes pensam de um homem, do qual se afirmasse o seguinte: “Você é um tipo leviano, que não se toma a sério a si próprio”. A resposta normal a tal injúria poderia ser uma bofetada! Pois, um homem que não se toma a sério a si próprio não vale nada; é próprio do homem tomar‑se a sério, e este é o primeiro passo para ele ser alguma coisa.

Ora, quanto mais descabida, para não dizer blásfema, a seguinte pergunta: Será que Deus se toma a sério a Si próprio?

Evidentemente, Deus Se toma infinitamente a sério, assim como Se ama infinitamente a Si próprio. Donde deflui que, tendo Ele apontado que determinadas atitudes constituem pecado, de tal forma que os homens que as praticam rompem com Deus e tornam-se seus inimigos, isto é tomado realmente a sério por Deus.

Tomando-Se a sério, Deus não diz algo que não produz efeito, não proclama uma inimizade que não é autêntica. Do contrário seria o caso de se perguntar se Deus existe.

A seriedade de tudo diante de Deus

Com esta seriedade, que participa de sua infinita sabedoria e santidade, Deus vê as ações dos homens.

Tudo é imensamente sério diante de Deus. O pecado, portanto, é profundamente sério, execrável e gravíssimo! Quem o comete rompe com Deus, pondo-se na mais miserável das situações.

Por mais rico que alguém possa ser, ao pecar torna-se o mais desafortunado dos homens, pois tendo tudo o que a Terra pode oferecer, não pode merecer o Céu. O pecador deve saber que é ainda pior o fato de ele estar na contingência de, a qualquer momento, advir-lhe a punição divina, seja com penas nesta vida, através de inúmeras e inopinadas desgraças que podem desabar sucessivamente sobre ele, ou então com a pior das punições, que é a do inferno, às quais nada nesta Terra serve como termo de comparação: as trevas eternas, onde o fogo queima e não ilumina, onde os piores tormentos atazanam continuamente os homens, os quais compreendem não haver para eles mais remédio.

O pecador tem a noção viva do mal que fez contra Deus e que não deveria ter feito, por ser Ele infinitamente Santo, Bom e Verdadeiro. Sabe igualmente que é pela infinita Justiça divina que aquela tremenda cólera desaba sobre os pecadores.

Esta noção os pecadores na Idade Média a tinham, e por isso iam à igreja pedir perdão e fazer penitência.

Sentir a gravidade do pecado

O que são essa penitência e esse perdão?

Em primeiro lugar, o pecador deve reconhecer todo o mal que fez. Para isso a Igreja incita-o a recitar os salmos penitenciais, os quais, de modo magnífico, estimulam o sentir da enorme gravidade e malícia do pecado. Através dos salmos penitenciais nota-se que sendo Deus tão insondavelmente bom, Ele cria o homem com a glória do estado de prova para assim poder adquirir méritos.

Contudo, tendo o homem pecado — ao invés de exterminá-lo de imediato conforme a ofensa mereceria —, Deus “cochicha” no ouvido do homem aquilo que o homem deve considerar a fim de medir a gravidade do mal cometido, além de ensiná-lo como pedir perdão, tal como um juiz que recebe o réu com uma majestade indizível, com aparatos de força e severidade tremendos, mas ao mesmo tempo manda alguém entregar ao réu um bilhete que diz: “Se rogares ao juiz na sinceridade de tua alma e pedires com as seguintes palavras que estão neste bilhete, o juiz te manda o recado que te atenderá!”

Assim, o pecador como um réu caminha para o Deus Juiz, com a oração ditada por Ele próprio. Não se pode imaginar maior manifestação de misericórdia do que esta.

Então, do fundo da igreja, vinha o mísero cortejo dos pecadores rezando: “Miserere mei Deus, secundum magnam misericordiam tuam, et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam — Tende compaixão de mim ó Deus, segundo a vossa grande misericórdia. E segundo a multidão de vossas bondades, apagai a minha falta.”

Sentindo-se esmagados pela grandeza do Juiz e pela infâmia de sua culpa, eles rezam para pedir perdão. Mas, ao mesmo tempo, são alentados pela promessa do Juiz que lhes diz: “Reza desta forma, meu filho, sente isto, que eu me tornarei teu amigo!” Nisso vê-se o magnífico equilíbrio da atitude divina.

Havendo Deus “ditado” a oração que deve ser a Ele dirigida para pedirmos perdão, não poderia ter Ele resumido esta súplica numa jaculatória, com isso adiantando o momento do perdão?

De súplica em súplica, até a confiança no perdão

Tal como está constituído, este conjunto de salmos dá a impressão de que, enquanto a pessoa reza, permanece, entretanto, certa dúvida acerca do perdão de Deus. Por isso o penitente repete o pedido com um novo argumento. Por vezes apela-se à bondade de Deus, noutra parte à glória. Porém, cada uma dessas palavras é muito adequada e útil para preparar o espírito à compenetração da gravidade do pecado, mas também para que vá se adquirindo uma confiança inabalável de que Deus o perdoará.

À medida que os salmos se sucedem, tem-se a impressão de que o Salmo da Confiança vai despontando, até chegar à última palavra, a qual opera uma explosão de confiança: “Vós me salvareis ó Deus!”

Quando se chega a esta esperança cheia de alegria pelo fato de Deus ter dito no fundo da alma do pecador que ele será salvo, inicia-se a Quaresma. Movido por esta esperança o pecador quer sofrer para expiar suas faltas.

Então, aproximando-se do padre, o pecador se ajoelha e este lhe traça com cinza uma cruz sobre a fronte, dizendo: “Lembra‑te, homem, que és pó e ao pó hás de voltar.” O que naquela ocasião equivalia a dizer: “Cuidado! A morte ronda em torno de ti. Deus, apesar de infinitamente bom, é justo também. Agora vai e faze penitência.”

Ela fere, mas também cuida da ferida

Como eram as penitências?

Antes de tudo tratava-se de jejuar, alguns chegavam a passar os quarenta dias a pão e água. Mas havia também uma cerimônia da bênção dos cilícios, os quais geralmente eram cintos cheios de pequenos ganchos de ferro que arranhavam a carne em torno do tronco, causando dolorosas feridas. Estes eram usados por alguns durante todo o período da Quaresma.

Note-se a bela atitude da Igreja que aqui está contida. Ao mesmo tempo em que ela estimula o uso dos cilícios, institui uma cerimônia para abençoá-los, como se dissesse: Penitencia‑te até o sangue, mas sendo tu meu filho, aproxima-te que vou deitar minha bênção neste instrumento que te tortura!

Aí se vê mais uma vez o equilíbrio entre a justiça e a misericórdia. E justamente por dever existir este equilíbrio entre estas, bem como entre as demais virtudes, é que devemos amar a justiça tanto quanto a misericórdia.

De maneira que diante de uma afirmação como a seguinte: “Deus disse ao pecador: Eu te execro!” Nós devemos exclamar, assim como o faríamos diante de uma frase misericordiosa. Pois, quando o pecador compreende o mal de seu pecado, e percebe quanto Deus odeia o pecado, ele compreende também quanto Deus é a Pureza. E diante da Pureza infinita de Deus, como pode alguém não se entusiasmar?

Quem tem horror ao pecado, ama a virtude à qual este se opõe. Portanto, é sumamente necessário ter entusiasmo pela severidade de Deus.

Uma bela oração para se fazer nesta Quaresma é a seguinte: “Ó meu Senhor, como Vós odiais meus pecados! Eu Vos peço: dai‑me uma centelha de vosso ódio sagrado em relação a eles!” Porém, logo depois, nós devemos também pedir a misericórdia, pois sem ela quem pode subsistir?

 

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 2/3/1984)

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