O “vitral” do Menino Jesus

Sem dúvida, uma das luzes da Civilização Cristã é o belo e imenso repertório de cânticos natalinos por ela engendrado. Cantado por diferentes nações, o mistério do Natal adquire, segundo a índole de cada povo, diversos coloridos e matizes, como os raios do Sol ao atravessarem um vitral.

Enquanto ouvia esses belos cânticos natalinos ingleses, eu estava pensando: Como é bonita a Civilização Cristã! Vemos como, nos vários povos, as canções de Natal variam de acordo com a índole nacional. Mas, de outro lado, como estão sempre presentes as mesmas características.

Hinos de entusiasmo pela inocência

Por exemplo, as músicas de Natal norte-americanas, brasileiras, italianas, alemãs, francesas, espanholas, são bem diferentes. Entretanto, por toda parte os mesmos sentimentos despertados pelo Menino Jesus, por Nossa Senhora, por São José, pelo presépio, etc., aparecem cantados de acordo com a índole de cada país.

Quais são essas notas características?

A primeira é a inocência. Os diversos povos souberam transmitir verdadeiramente um hino de entusiasmo pela inocência de Nosso Senhor, mas que repercute sob a forma de acordes da inocência com os quais cada um glorifica o Menino Jesus. Quer dizer, cada um dá o que tem de inocência para glorificar o Divino Infante. Isso vale muito mais do que o tambor(1).

O entusiasmo que cada um tem pela inocência d’Ele é um elemento de inocência em nós, porque se não tivéssemos nenhuma inocência, não nos interessaríamos por Ele. Quantas pessoas há por aí afora que não se interessam por Ele! E isso porque não têm verdadeira inocência. Se nos interessamos e cantamos bem a inocência do Menino-Deus, é porque há uma inocência em nós. Então, vê-se a inocência presente nesses cânticos.

A ternura por Deus-Menino

Está presente também a ternura. Dado o fato de o Menino Jesus ser tão fraco, tão pequeno, mas ao mesmo tempo Deus, há uma espécie de ternura, eu quase diria de compaixão, porque sendo Deus tão grande, entretanto está, por assim dizer, contido naquela criancinha. Surge, então, uma vontade de proteger o Menino Jesus contra qualquer perigo. Por isso, certas canções de Natal tomam, em certo momento, um ar de defesa e de proclamação de um hino.

Um ”vitral” de músicas natalinas

Eu gostei muito de encontrar essas várias notas nas canções inglesas que vocês cantaram tão bem. É a permanência do mesmo efeito salvífico, divino, salutar, do Menino Jesus sobre as almas das várias nações. É mais ou menos como o Sol que tem sempre a mesma cor, mas quando seus raios incidem sobre um vitral, ao atravessarem os vidros, tomam coloridos diferentes e muito harmoniosos. E se a luz se projeta no chão, fica uma beleza, como se alguém tivesse jogado ali pedras preciosas.

Assim também, Jesus é um só, mas cantado pela alma anglo-saxônica — inglesa ou americana —, vê-se n’Ele uma beleza; cantado pela alma germânica, outra beleza; pela alma latina, outra beleza. Já ouvi canções eslavas em louvor do Menino Jesus, inclusive russas, muito bonitas, mas com uma outra nota. Também brasileiras, hispano-americanas, etc. Tudo isso forma o “vitral” do Menino Jesus. E foi a beleza que eu notei muito aqui, nas canções há pouco entoadas.

Um verdadeiro presente

Agradou-me muito também constatar a força, energia, ênfase e resolução com que cantaram. Agradeço este verdadeiro presente, em primeiro lugar, porque me deu uma recreação agradável após um dia inteiro de trabalho. Mas também porque são sentimentos internos que vocês revelam e que para mim valem muito mais do que qualquer canção. Ainda que fosse um concerto na Ópera de Nova York, com um coro fantástico, valia menos para mim do que essas canções entoadas pelos meus “bem-te-vis”(2) passados, presentes e futuros. Fico muito agradecido pela iniciativa que tomaram e peço a Nossa Senhora que os abençoe.

Plinio Corrêa de Oliveira (Extraído de conferência de 30/12/1988)
Revista Dr Plinio 189 – Dezembro de 2013

1) Dr. Plinio se refere à história de um pobre menino que, não tendo com que presentear a Jesus recém-nascido, toca diante d’Ele seu velho tambor.
2) Título afetuoso dado por Dr. Plinio a seus jovens discípulos norte-americanos.

 

Coordenação do Blog – João Sérgio Guimarães

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