
Minhas férias com Frei Galvão
E não choveu!
No segundo dia não vimos Tio Carlos pela manhã. Ele tinha saído bem cedo e ficou fora todo o dia.
Sem perceber, todos nós estávamos com desejo de encontrá-lo novamente. Aquela história de um homem que não pisava realmente no chão havia tomado a minha imaginação. Saber que aquilo não era televisão, era vida real, me deixava cheio de interrogações.
Tio Carlos chegou para o jantar, e já havia gente querendo fazer perguntas. Mas ninguém se atreveu. Foi preciso esperar encerrar a conversa dos adultos para poder correr para a varanda. Nós seis ocupamos os nossos lugares, à espera de que o Tio chegasse.
A Alice nem esperou que ele terminasse os cumprimentos e foi logo dizendo:
— Tio Carlos, por que o povo gostava tanto de Frei Galvão?
— Isso era um fato conhecido... As pessoas vinham de longe para ver e ouvir Frei Galvão. A capela do Mosteiro da Luz estava sempre lotada. Vinha gente de todas as partes para assistir a suas missas e ver como ele era uma pessoa em tudo extraordinária.
— Eles queriam provavelmente ver um milagre? Sugeriu Alice.
— Certamente que sim! Na verdade realizaram-se grandes milagres por meio dele. Por exemplo, você conhece o fato que aconteceu durante uma missa que Frei Galvão celebrou na cidade de Guaratinguetá?
— Não. Foi um milagre? Eu não conheço! Por favor, conte. Pediu Bruno.
— Ah! Na época, o fato foi muito comentado... Por toda parte só se ouvia falar disso... Foi assim: Frei Galvão foi rezar uma missa em Guaratinguetá. No dia da celebração apareceu gente demais. A igreja já estava cheia e a maioria ainda estava do lado de fora. Ficou impossível celebrar a missa dentro da Igreja...
Algumas pessoas tinham andado algumas léguas e agora tinham que ficar vendo as paredes... A multidão começou a se agitar e Frei Galvão, temendo que algo acontecesse, resolveu que a missa seria celebrada ao ar livre, na praça em frente à Igreja...
— Na praça, Tio Carlos?! Tudo aberto, sem proteção nenhuma... Queria saber Alice, um pouco preocupada.
— Não tinha outro jeito, Alice. Teve que ser ao ar livre!... Assim que Frei Galvão começou as orações da missa, aconteceu algo que ninguém esperava. De repente, nuvens negras cobriram a praça e ameaçou um grande temporal.
— Eu tenho medo de raios... Comentou a medrosa Bia.
— Pois é, ainda mais que começou uma ventania daquelas...
— Pernas, para que te quero, não é? O povo deve ter sumido. Disse Bruno.
— Não fosse uma intervenção de Deus, teria acontecido mesmo isso. Por mais que os fiéis quisessem rezar e ouvir o sermão de Frei Galvão, estavam apavorados: as nuvens negras se aproximavam com relâmpagos e raios. Alguns até queriam correr... Outros procuravam um lugar próximo onde pudessem ficar sem se molhar...
— Meu Deus, deve ter sido uma bagunça! Comentou Jairo.
— Já pensou? O altar, as toalhas, o cálice e as hóstias... Tudo poderia cair pelo chão ou molhar-se... Afirma Alice, mais preocupada que antes.
— Mas não houve nada disso! Frei Galvão percebeu o que poderia acontecer e pediu a solução a Deus... Ele interrompeu a missa. Olhou para o crucifixo e rezou por um instante, em silêncio... Pouco a pouco sua face foi se iluminando... Depois, olhou para o povo e disse com convicção:
— Fiquem onde estão! Aqui não vai chover! Vamos continuar a missa...
Frei Galvão voltou-se para o altar e todos acompanharam piedosamente a oração. Na hora do sermão o povo ouviu com atenção e até se esqueceu do temporal. Somente no final da missa as pessoas se deram conta do que havia acontecido...
— Estavam todos encharcados?... Choveu? O que foi que aconteceu, Tio Carlos? Pergunta Jairo, com aflição.
— Foi mais interessante ainda! Choveu em toda a cidade, mas na praça nem chuviscou... Não caiu uma gota de água onde estavam rezando!
— Na praça não choveu?
— Nem uma gota... Foi um milagre assistido por uma multidão.