I – RETRATO DE JACINTA

7. Primeira Aparição

Entretanto, Exmo. Revmo. Senhor Bispo cheguei à idade em que minha Mãe mandava os seus filhos guardar o rebanho. Minha Irmã Carolina fez os seus 13 anos e era preciso começar a trabalhar. Minha Mãe entregou-me, por isso, o cuidado do nosso rebanho. Dei a notícia aos meus companheiros e disse-lhes que não voltava mais a brincar com eles; mas os pequeninos não se conformavam com a separação. Foram pedir à Mãe que os deixasse ir comigo, o que lhes foi negado.

Tivemos que nos conformar com a separação. Vinham, então, quase todos os dias, à noitinha, esperar-me ao caminho e lá íamos, então, para a eira, dar algumas corridas, à espera que Nossa Senhora e os Anjos acendessem as suas candeias e as viessem pôr à janela para nos alumiar, como nós dizíamos. Quando não havia luar, dizíamos que a candeia de Nossa Senhora não tinha azeite.

Aos dois pequeninos custava a conformar com a ausência da sua antiga companheira. Por isso, renovavam continuamente as instâncias junto de sua Mãe, para que os deixasse, também eles, guardar o seu rebanho. Minha tia, talvez para se ver livre de tantos pedidos, c: apesar de serem demasiado pequenos, entregou-lhes a guarda das suas ovelhinhas. Radiantes de alegria, foram dar-me a notícia e combinar como juntaríamos todos os dias os nossos rebanhos. Cada um abriria o seu, à hora que lhe mandasse sua Mãe e o primeiro esperava pelo outro, no Barreiro (assim chamávamos a uma pequena lagoa que estava ao fundo da serra). Uma vez juntos, combinávamos qual a pastagem do dia e para lá íamos, tão felizes e contentes, como se fôssemos para uma festa!

Aqui temos, Exmo. e Revmo. Senhor Bispo, a Jacinta na sua nova vida de pastorinha. As ovelhinhas ganhamo-las à força de distribuir por elas as nossas merendas. Por isso, quando chegávamos à pastagem, podíamos brincar descansados, que elas não se afastavam de nós. A Jacinta gostava muito de ouvir o eco da voz no fundo dos vales. Por isso, um dos nossos entretenimentos era, no cimo dos montes, sentados no penedo maior, pronunciar nomes em alta voz. O nome que melhor ecoava era o de Maria. A Jacinta dizia, às vezes, assim, a Ave Maria inteira, repetindo a palavra seguinte só quando a precedente tinha acabado de ecoar.

Gostávamos também de entoar cânticos. Entre vários profanos que infelizmente sabíamos bastantes, a Jacinta preferia o Salve Nobre Padroeira, Virgem Pura, Anjos, cantai comigo. Éramos, no entanto, bastante afeiçoados ao baile e qualquer instrumento que ouvíssemos tocar aos outros pastores era o bastante para nos pôr a dançar. A Jacinta, apesar de ser tão pequena, tinha, para isso, uma arte especial.

Tinham-nos recomendado que, depois da merenda, rezássemos o Terço; mas, como todo o tempo nos parecia pouco, para brincar, arranjamos uma boa maneira de acabar breve: passávamos as contas, dizendo somente: Ave Maria, Ave Maria, Ave Maria! Quando chegávamos ao fim do mistério, dizíamos, com muita pausa, a simples palavra: Padre Nosso! E assim, em um abrir e fechar de olhos, como se costuma dizer, tínhamos o nosso Terço rezado!

A Jacinta gostava também muito de agarrar os cordeirinhos brancos, sentar-se com eles no colo, abraçá-los, beijá-los e, à noite, trazê-los ao colo para casa, para que não se cansassem. Um dia, ao voltar para casa, meteu-se no meio do rebanho.

- Jacinta - perguntei-lhe - para que vais aí, no meio das ovelhas?

- Para fazer como Nosso Senhor que, naquele santinho que me deram, também está assim, no meio de muitas e com uma ao colo.



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